Pareciam namorados. Andavam de mãos dadas sempre. As demonstrações de afeto em pública eram constantes. Ele sempre atencioso, ela extremamente carinhosa. O amor deles contaminava o ambiente. Onde estivesse eram o centro das atenções. Não gostavam, mas não escondiam o amor, afinal tinham jurado amor eterno perante Deus. O que ninguém sabia, contudo, é que quando ninguém estava vendo não passavam de dois irmão que não suportavam um ao outro.
domingo, 14 de dezembro de 2014
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Buracos
Desde criança era dona de uma timidez absurda. Na escola sonhava pelo dia em que um buraco apareceria embaixo de sua cadeira para poder se esconder toda vez que a professora chamava seu nome, mal brincava com os coleguinhas e vivia meio pelos cantos desejando ser invisível. Cresceu e parece que o diacho da timidez cresceu com ela: continuava sonhando com um buraco onde pudesse se esconder.
E de tantos buracos desejados, um dia conheceu um que era seu e que ela nunca quis ter: um bem no meio do coração criado por um amor platônico, o qual ela preferia morrer a contar que sentia.
E de tantos buracos desejados, um dia conheceu um que era seu e que ela nunca quis ter: um bem no meio do coração criado por um amor platônico, o qual ela preferia morrer a contar que sentia.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Inexistência
Ele já não saia de casa há dias. Nos primeiros, o telefone tocava sem parar. Talvez fosse o chefe. Talvez a paquera da qual ele não retornou as ligações. Talvez fosse algum familiar. Não importava. Ele estava disperso, e, embora acordado, inconsciente. Fixara o teto do quarto por bastante tempo. O teto continha um papel de parede de galaxias. Um desenho fabuloso, mas que, para ele, apequenava a existência de qualquer um. Após dias admirando o desenho, sentia-se inane, completamente. A sua existência era material e frívola. Seu corpo era mero objeto de uma realidade inexplicável, e pensar nela era demais para um cérebro fatigado. A solidão não existia, pois no estado de absorção em que ele se metera a vida e a morte andavam de mãos dadas.
Amargor
Sentia um gosto amargo na boca. O amargor começava no fundo da língua, e contaminava toda a boca. O gosto era terrível. Não se lembrava de ter bebido ou comido nada, alias só comia depois do meio-dia e ainda faltavam quinze para as onze da manhã. Ficou intrigado com aquele gosto. Pensou que poderia ser algo na repartição em que trabalhava, mas, ao consultar os colegas, ninguém se identificou com o problema. Ao voltar do almoço, sentiu que o problema permanecia, e se acentuava quando admirava alguns fatos. Notou que o amargo decorria de um fenômeno estranho. A Marcinha, que nunca aceitara sair consigo, estava correspondendo a caricias. Foi então que ele provou fisicamente da desilusão.
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Poesia
Perguntaram um dia ao velho poeta, afinal, o que era a poesia? Ele suspirou profundamente e procurou palavras no vento:
- Poesia, meu caro, a gente não define, a gente não mede, nem devia ter no dicionário... poesia a gente sente e só.
- Poesia, meu caro, a gente não define, a gente não mede, nem devia ter no dicionário... poesia a gente sente e só.
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Ciúmes
Acordou, mas não abriu os olhos. O corpo pesava mais que uma tonelada, os olhos pareciam colados, a consciência lhe devorava a alma e as entranhas. Lembranças vorazes da noite anterior voltavam a sua mente com uma rapidez que lhe nauseava, ainda podia sentir o cheiro do sangue fresco jorrando, a sensação de poder e coragem absoluta que sentiu na primeira punhalada que desferiu, ainda ouvia o grito seco de dor dela, ainda lembrava-se de como ficou linda, pálida e pintada de vermelho no chão. A imagem de Maria fria no chão lhe causava sensações extremas: ódio por matar seu amor e alívio por saber que ela seria para sempre apenas dele.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Velhice
Era pra ser só um dia a mais,
um dia normal, um dia qualquer,
com tédio, rotina e paz,
mas é dia que não tem colher.
Parece inclusive que sou rei,
Que todo mundo me quer bem;
Talvez seja por quê vinguei,
ou por que não estou no além.
Afinal, não entendo bem o ritual,
hoje sou astro e sou estrela,
amanhã sou ninguém, coisa e tal.
Ninguém me lembra, e nem me vela.
Pra mim é um, só mais um, clichê,
tal qual os abraços e parabéns pra você.
um dia normal, um dia qualquer,
com tédio, rotina e paz,
mas é dia que não tem colher.
Parece inclusive que sou rei,
Que todo mundo me quer bem;
Talvez seja por quê vinguei,
ou por que não estou no além.
Afinal, não entendo bem o ritual,
hoje sou astro e sou estrela,
amanhã sou ninguém, coisa e tal.
Ninguém me lembra, e nem me vela.
Pra mim é um, só mais um, clichê,
tal qual os abraços e parabéns pra você.
De aniversário!
Tem vezes (e gentes) que é difícil de parabenizar
Porque só palavras parecem ser pouco demais...
E é por isso que o parabéns vai em poema.
Poemas são completos e expressam melhor.
Em um mini poema de parabéns cabem
Todas as coisas bonitas do mundo:
tem arco-íris, tem cheiro de livro,
tem sonhos, tem orvalho da manhã.
Vai também bolo e guaraná e brigadeiro
pra não esquecer de ser criança nunca.
Vai ainda um abraço-verso e
Um parabéns sem rima (pra não ser clichê).
Porque só palavras parecem ser pouco demais...
E é por isso que o parabéns vai em poema.
Poemas são completos e expressam melhor.
Em um mini poema de parabéns cabem
Todas as coisas bonitas do mundo:
tem arco-íris, tem cheiro de livro,
tem sonhos, tem orvalho da manhã.
Vai também bolo e guaraná e brigadeiro
pra não esquecer de ser criança nunca.
Vai ainda um abraço-verso e
Um parabéns sem rima (pra não ser clichê).
terça-feira, 4 de novembro de 2014
A fuga
Os joelhos já doíam imensamente quando teve coragem de parar e olhar para trás. Ofegante e suado, havia corrido por horas por caminhos que mal teve tempo de ver. Sangrava das pedras que lhe derrubaram, tremia de um medo tão puro, tinha os olhos parados e secos. Chegara a algum lugar desconhecido e olhava em volta para ter certeza de que o agente causador de tamanho pânico não estava mais lhe seguindo. Foi quando, em um suspiro profundo de dor, deu-se conta de que nunca estaria liberto dessa perseguição e, em prantos, admitiu que não podia mais fugir de si mesmo.
Nasceu num dia cinza. Talvez por esse motivo a única pessoa que compareceu ao seu nascimento foi sua própria mãe e um médico mal humorado e com pressa. Naquele dia, contam, choveu que parecia que o mundo inteiro viraria um imenso oceano. Não virou, mas tanta água dos céus criou naquela criança um amor pela solidão e pela chuva. Cresceu ouvindo que era estranha e até concordava por falta de opção melhor para lidar com as pessoas. E nos dias cinzas, sozinha no quarto, viajava para mundos distantes na imaginação e era lá que verdadeiramente habitava.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
O céu sem cor
Estivera dividido por todo o tempo. Era amante do céu. Era apaixonado no vento. Amores divididos, amores contraídos. Pensamentos. Vivia a pensar na imensidão. O que era vida além de toda aquela sensação? Não entendia. Correspondia. Um dia, porém, o céu nasceu sem cor, era o céu perdido. Era o nascimento do amor.
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
Estrelas
Havia na noite estrelada algo que sempre o fazia chorar. Deitado na grama, escondido no fundo do quintal, com os grandes olhos cheios de lágrimas que escorriam e juntavam-se ao orvalho da noite, chorava como criança indefesa.
Não sabia ao certo o motivo do choro; talvez fosse porque as estrelas lembravam o açúcar sobre os sonhos de doce de leite que ela fazia para comemorar o aniversário de namoro, talvez porque elas lembravam as sardas do rosto dela, talvez porque em cada constelação só o rosto dela havia.
Mas de algo tinha plena certeza: ela foi, o amor e as estrelas ficaram.
Não sabia ao certo o motivo do choro; talvez fosse porque as estrelas lembravam o açúcar sobre os sonhos de doce de leite que ela fazia para comemorar o aniversário de namoro, talvez porque elas lembravam as sardas do rosto dela, talvez porque em cada constelação só o rosto dela havia.
Mas de algo tinha plena certeza: ela foi, o amor e as estrelas ficaram.
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
Ponto
Era um ponto preto no piso.
Branco. Piso. Preto. Ponto.
Quanta complexidade nisso!
Ninguém vê o ponto. Tonto.
Quem mais teria tempo?
O tempo que ninguém tem,
é cultivado no piso de ninguém.
E o ponto preto? Passatempo.
Uma formiga que ninguém viu,
e que passou como o céu primaveril.
Branco. Piso. Preto. Ponto.
Quanta complexidade nisso!
Ninguém vê o ponto. Tonto.
Quem mais teria tempo?
O tempo que ninguém tem,
é cultivado no piso de ninguém.
E o ponto preto? Passatempo.
Uma formiga que ninguém viu,
e que passou como o céu primaveril.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Gran finale
Planejou um suicídio para chamar a atenção. Era uma ideia nada convencional, mas no mundo atual ele achou que valia a pena. Pra ele o mundo se media pelo número de curtidas que recebia. Ele tinha muitas curtidas, mas as ideias estavam acabando. Já tinha nadado com tubarões e pulado de carro em movimento. Tinha feito tatuagem de desenhos indicados por votação e bebido óleo de motor. O suicídio foi planejado meticulosamente. Ele pularia de uma árvore, cujo galho já estava parcialmente cerrado. Ele pôs reforço ligado aos quadris na corda de forma que não quebraria o pescoço com a queda. Tudo certo. Era o gran finale, e foi um sucesso. Infelizmente ele não sobreviveu pra ver.
terça-feira, 19 de agosto de 2014
O tempo
Sentou-se em sua cadeira de balançar, que ficava na varanda, para sua sesta. O clima estava agradável naquele outono. Ele fixou o olhar no balanço que seu pai havia construído pra ele. As lembranças pareciam um filme em sua cabeça. Não sabia como envelhecera tanto. Quando deu por si novamente a noite já havia chegado.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Desnaturado
Pescava à beira do rio, o tempo era calmo e frio. Sentia-se sem preocupações, e a calmaria o livrava das desilusões. A vida era demasiado singela, até demais para um ser feio e banguela. Preferia assim, a solidão o confortava. Fosse pelo silêncio da madrugada, ou pela fome que não ficava. Viver sozinho lhe dava paz, já que a cidade grande complexa assaz. Aos alheios era um desnaturado, ele não importava desde que não fosse perturbado.
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Simulador
Inventou um simulador de sinceridade. Era um sonho ser sincero, mas tinha medo das implicações. Não deu outra. No primeiro dia de simulação ele fora despedido, brigou com a mãe e com a esposa. No segundo dia apanhou de grandes amigos, e foi expulso do bar que frequentava. No terceiro dia decidiu voltar ao cinismo.
domingo, 10 de agosto de 2014
Pôr-do-sol
Era só se decepcionar. Decepcionar-se na mesma proporção que sentia apatia. A decepção, ao contrário da apatia, deixava um rastro de experiência. Ela, contudo, não se importava se era decepção ou apatia, mas quando sentava para ver o pôr-do-sol sabia que fazia toda a diferença.
sábado, 9 de agosto de 2014
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
Ode à eternidade
Ser-te-ei eternamente teu,
dos pés aos fundo do coração.
Ser-te-ei eternamente teu,
no inverno, na primavera.
Ser-te-ei eternamente teu,
mesmo sem sê-lo com devoção.
Ser-te-ei eternamente teu,
ainda que seja só quimera.
dos pés aos fundo do coração.
Ser-te-ei eternamente teu,
no inverno, na primavera.
Ser-te-ei eternamente teu,
mesmo sem sê-lo com devoção.
Ser-te-ei eternamente teu,
ainda que seja só quimera.
terça-feira, 5 de agosto de 2014
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Memórias
Entrou na clinica e pediu: Apaga tudo! O atendente chegou a indagar: tem certeza? O processo é irreversível. Ele estava certíssimo de que era o melhor a se fazer, e frisou: Apaga tudo, tenho certeza absoluta. Havia semanas que pensava no processo de "reset" das memórias. Contava com mais de 30 anos, não tinha família, e, com exceção da vida profissional, era um fracassado. Começar do "zero" era uma alternativa, uma "segunda chance". Sentou na cadeira e fechou os olhos. Ele sabia que aqueles olhos jamais abririam novamente, mas resolveu correr o risco.
domingo, 3 de agosto de 2014
So beautiful
Ela mudava, sempre mudava. Acompanhava a onda, e se deixava levar pelos balanços. Parecia até uma esponja absorvendo tudo de novo que surgia. Ele, ao contrário, era estático, de poucas mudanças. Eles pareciam feitos um para o outro, não fosse os olhos deles. Ele já não sabia olhar para ela e ver a beleza que ele conhecia nela. A beleza era apenas uma lembrança, apenas beleza.
sábado, 2 de agosto de 2014
Silêncio
A brisa do mar balança os cabelos do grisalho homem. Sentado de frente para o mar parecia solitário. Era conhecido como silêncio, já que era de poucas palavras. Silêncio sempre foi tido por sábio, e era na medida em que não deixou a prolixidade do mundo contemporâneo lhe consumir.
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
quinta-feira, 31 de julho de 2014
quarta-feira, 30 de julho de 2014
terça-feira, 29 de julho de 2014
Céu
O céu brilhava,
mas não havia alegria.
Choro se ouvia.
O céu brilhava,
mas não era nenhum rojão.
Morte de peão.
O céu brilhava,
e um povo rezava.
Outro gozava.
mas não havia alegria.
Choro se ouvia.
O céu brilhava,
mas não era nenhum rojão.
Morte de peão.
O céu brilhava,
e um povo rezava.
Outro gozava.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
domingo, 27 de julho de 2014
sábado, 26 de julho de 2014
Brincando
Eu brincava de criar ilusões.
Fantasiava o mundo em cores.
O mundo era sem paixões,
enquanto eu era só dores.
Não desdenhava os incolores,
éramos, no fundo, bem parecidos,
eles não viam a beleza das flores,
e eu não via muitos sentidos.
Eu brincava de criar ilusões,
e fingia que o mundo era colorido,
no ápice das minhas paixões,
eu fingia que não era um fingido,
e com os pés coloria o mundo,
e com as mãos apagava o fundo.
Fantasiava o mundo em cores.
O mundo era sem paixões,
enquanto eu era só dores.
Não desdenhava os incolores,
éramos, no fundo, bem parecidos,
eles não viam a beleza das flores,
e eu não via muitos sentidos.
Eu brincava de criar ilusões,
e fingia que o mundo era colorido,
no ápice das minhas paixões,
eu fingia que não era um fingido,
e com os pés coloria o mundo,
e com as mãos apagava o fundo.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
quarta-feira, 23 de julho de 2014
terça-feira, 22 de julho de 2014
Fora
Às vezes eu acordo sem destino,
e sou menino.
Às vezes eu acordo meio oculto,
e sou homem adulto.
Às vezes nem acordo,
mas estou à bordo.
A vida subsiste,
sem muita intromissão
no barco em que estamos.
Dentro tudo existe,
fora dele é só escuridão,
nada somos, nos amiudamos.
e sou menino.
Às vezes eu acordo meio oculto,
e sou homem adulto.
Às vezes nem acordo,
mas estou à bordo.
A vida subsiste,
sem muita intromissão
no barco em que estamos.
Dentro tudo existe,
fora dele é só escuridão,
nada somos, nos amiudamos.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Pecado
Meus pecados a mim interessam.
Produtos de mim ou eu deles,
convivemos em pequena paz.
Pequena porque não cessam,
escondem-se sob as minhas peles,
tornando-me sábio ou incapaz.
Somos cargas magnéticas inversas,
tão necessários um ao oposto,
que sem eles sou nada, nulo.
E por mais que hajam ruas perversas,
a caminhada pecaminosa dá gosto,
por ser da experiência o veículo.
Os pecados não possuem um fim,
vivem por ai, dentro de mim,
me tornando maior e tacanho,
alegre, algoz, triste ou estranho.
Mesmo que fosse pecado-virtude,
de fora ninguém veria a plenitude.
Produtos de mim ou eu deles,
convivemos em pequena paz.
Pequena porque não cessam,
escondem-se sob as minhas peles,
tornando-me sábio ou incapaz.
Somos cargas magnéticas inversas,
tão necessários um ao oposto,
que sem eles sou nada, nulo.
E por mais que hajam ruas perversas,
a caminhada pecaminosa dá gosto,
por ser da experiência o veículo.
Os pecados não possuem um fim,
vivem por ai, dentro de mim,
me tornando maior e tacanho,
alegre, algoz, triste ou estranho.
Mesmo que fosse pecado-virtude,
de fora ninguém veria a plenitude.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Dreams
Estivera sentado à beira do rio,
o chão era quente, o céu era frio.
Só se ouvia a água e seu chiar.
Parecia que estava a sonhar.
Poderia ser tudo idealização,
da cor do céu ao cheiro do chão.
Pra ele estava tudo tão bom,
que nada macularia o frisson.
Que fosse a vida um sonho,
um verso d'um deus risonho;
Fosse flor de verão,
fosse inútil invenção.
Viver, mesmo na imaginação,
os ternos dias da estação,
era uma dádiva do universo,
mesmo sendo só um verso.
o chão era quente, o céu era frio.
Só se ouvia a água e seu chiar.
Parecia que estava a sonhar.
Poderia ser tudo idealização,
da cor do céu ao cheiro do chão.
Pra ele estava tudo tão bom,
que nada macularia o frisson.
Que fosse a vida um sonho,
um verso d'um deus risonho;
Fosse flor de verão,
fosse inútil invenção.
Viver, mesmo na imaginação,
os ternos dias da estação,
era uma dádiva do universo,
mesmo sendo só um verso.
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Destino
Pra ela não havia noite, pra ele não havia dia. Eles se desencontravam. Andavam pelo mundo cada qual no seu turno. Ela procura alguém como ele, e ele alguém como ela. Formariam um belo casal, mas o destino tem sempre umas coisas e tal.
quarta-feira, 16 de julho de 2014
A noite
Ela parou pra ouvir o que a noite dizia. Sentou-se no meio-fio. Olhou para o céu. Ouvia um sussurro, nada que pudesse identificar. Esforçava-se para ouvir. Canalizava sua atenção. A noite expandia, caia por todos os lados do céu. Ela atenciosa ouvia. Lá fora era silêncio. Também ouvia um som que parecia ser lamento, mas esse, para engano dela, não vinha de fora. Vinha de dentro.
terça-feira, 15 de julho de 2014
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Inverno
Amanheceu, e ainda é inverno.
O céu, meu teto de alabastro,
está impecável e sem rastro
daquele sol outrora eterno.
Já não me lembro do dia terno,
com a qual respirava brandamente.
Agora o desassossego é reincidente,
minha ilusão é chão qual hiberno.
Nada há que afaste a sensação,
de que afogado estou no deserto.
Embora o meu seja mundo-cão,
me apego em mim, me descoberto,
e enquanto afogo na ilusão,
espero no inverno o sol do verão.
O céu, meu teto de alabastro,
está impecável e sem rastro
daquele sol outrora eterno.
Já não me lembro do dia terno,
com a qual respirava brandamente.
Agora o desassossego é reincidente,
minha ilusão é chão qual hiberno.
Nada há que afaste a sensação,
de que afogado estou no deserto.
Embora o meu seja mundo-cão,
me apego em mim, me descoberto,
e enquanto afogo na ilusão,
espero no inverno o sol do verão.
For Lucy
Colhendo as margaridas do jardim.
Lucy, vai, e deixa o inverno, vem e leva o verão.
Eternamente inconstante, e constantemente assim.
É o céu e o inferno.
É inércia e ação.
É tenra, é errante.
Mas deixa sempre um sorriso,
profundo, complexo, conciso.
Lucy, vai, e deixa o inverno, vem e leva o verão.
Eternamente inconstante, e constantemente assim.
É o céu e o inferno.
É inércia e ação.
É tenra, é errante.
Mas deixa sempre um sorriso,
profundo, complexo, conciso.
sexta-feira, 11 de julho de 2014
We could start again
Morrer e Renascer. Dormir e acordar. Ausência e presença. Um ciclo cansativo, mas nem o meditar sobre a morte o reconfortava. Omitir-se do mundo. Agir na escuridão do dia. Era cansativo. Até as tarefas mais simples eram tediosas. O ciclo era tedioso, mas ele era resistente. Resiliente. Suportava tudo, até o fato de que era feliz demais.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Renoir
O vento assoviava. A tarde sorria um sol alaranjado. As pessoas olhavam para o horizonte, procurando a beleza. Era tudo belo. Como uma tela impressionista. A cidade parecia uma obra de Renoir. Colorida e vibrante. A poesia brilhante eclodia de tudo, inclusive do filete de sangue do caído anônimo inanimado.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Trânsito
Era pra ser estação,
um inverno sem nome.
Era pra ser retração,
uma noite insone.
Era pra ser ilusão,
que o soluço come.
Mas era canção,
era triste, era fome.
um inverno sem nome.
Era pra ser retração,
uma noite insone.
Era pra ser ilusão,
que o soluço come.
Mas era canção,
era triste, era fome.
quinta-feira, 3 de julho de 2014
Les Iris
Lia a biografia de Van Gogh. O barulho era ensurdecedor em seu contorno. Ele pouco ligava. O silêncio completo e o extremo barulho não fazia tanta diferença pra quem não tinha nada além daquilo. Final da copa do mundo e ele estava lá. Pescava palavras, como fazia com peixes na companhia de seu avô quando criança. Ele não queria ser diferente, mas era lá na igualdade que o contraste reluzia.
sexta-feira, 27 de junho de 2014
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Solenidades
Rezava. Rezava com imprudência. Os joelhos cheiravam demência. Os dedos de contar rosário. Rezava sempre, e até mais que o vigário. Todas as manhãs. Todas as noites. Crente. Temente. Afoite. Rezava. Castigava. Era fé. Era fava. Dizia velar bons costumes e ter alma cristã, mas lambia a mão de satã. No fundo era divida. A mesma boca que lambia a morte, beijava a vida.
domingo, 1 de junho de 2014
Instável
Era moço jovem. As forças saltavam aos braços. Gentil e bem apessoado. Tinha sorriso fácil, e era benquisto. Todavia, quando anoitecia, ele amargava. Ninguém lhe perguntava da doença o nome. O rosto fechava, parecia loucura, mas era fome.
domingo, 25 de maio de 2014
Mil faces
Ela havia descoberto a cura para todas as doenças existentes, mas sabia que se divulgasse naquele momento as pessoas que precisavam do tratamento não teriam acesso a ele. Quando, em tom ultrassecreto, informou seu amigo e companheiro de pesquisas que havia descoberto a cura, e que distribuiria a fórmula sem custos, ele a alertou que ela mataria mais que Hittler, que haveria superpopulação nas cidades, miséria, superlotação dos sistemas de saúde, etc. Ela não sabia o que fazer. Quando criou a cura, esqueceu-se que a morte tem mil faces.
sexta-feira, 23 de maio de 2014
Caminhos
Ele quis acreditar que era verdade. O mundo conspirava pra ser. Ele sorria, ela também. Ele era uma pessoa normal, e ela uma pessoa de sucesso. Isso não fazia diferença, pensava ele. Quando ele ofereceu cerveja pra ela na balada, os caminhos tomaram rumos diferentes.
quarta-feira, 21 de maio de 2014
Deformação
Ela acordou assustada, era madrugada de uma sexta-feira 13 qualquer e ela tinha horror de sextas-feira 13. Notou, ao se mexer, que um homem dormindo ao seu lado. Não fazia ideia de quem fosse. Pensou em gritar, mas ele parecia familiar, ou talvez fosse um pesadelo. Olhou para o quarto e não se lembrava dele, tampouco dos móveis. Os móveis estavam dispostos de forma que o dono do quarto parecia uma pessoa muito asseada, o que ela não era. Não sabia o que fazia ali. Pensou em seu próprio nome, mas não sabia qual era, tampouco qualquer coisa sobre sua história. Tentou dormir novamente, mas não conseguia lidar com o fato de que representava tão pouco para si mesma que sequer se reconhecia. A realidade a esmagava. Não era ninguém. A sua vida era vazia. Deformada, saiu para comprar cigarros, embora não tivesse qualquer ideia se fumava ou não, e não voltou.
terça-feira, 20 de maio de 2014
Não é você
Não é você, é o cheiro de pitanga amarga que você tem quando passa perto de mim. Não é você, é aquele olhar que me engole quando passa. Não é você, é aquela barba que sobra quando você me diz um simples "oi". Não é você, é a sua mão que pesa mais que meu mundo inteiro. Não é você, é o timbre da sua voz rouca que come meus pedaços. Não é você, é seu abraço que me acolhe como criança. Não é amor, não, é você.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Entre o desejo e o desprezo
O seu cheiro na academia, suado, sarado, homem, me comia pelas entranhas. Algo em você era tão especial quanto a cerveja gelada no bar as sextas-feiras. Você era um meu tão meu que eu até tinha medo. Você era. Era você. Você era a ligação que eu não retornava as segundas (e não atendia aos domingos). Você era o meu cheiro de suor misturado com hidratante tanto amado. Você era o meu desejo ao pisar na academia e o meu desprezo ao sair. Você era você, deliciosamente, ao te amar suado e você era eu ao te desprezar no dia seguinte. Você não era você. Você era eu.
sábado, 17 de maio de 2014
Dormência
Ela dormia. A noite invadia seu quarto pela janela entreaberta, e a luz da lua criava um clarão na parede. O vento suave e constante fazia a cortina de seda balançar, dançando lentamente sobre a mesa. Ela dormia, enquanto a noite virava dia. O céu escuro clareava, e ela dormia. Um azul-cobalto floreava a vista, e ninguém via. Ela dormia, e perdia o despertar do sol. O céu tornou-se azul-marinho, azul-celeste, azul-bebe... e ela dormia. Ela dormia. Enquanto a chuva caia, ela dormia.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Mudanças
Ele desistiu. Olhou para trás. Coçou a cabeça. Fitou o horizonte que se esquecia, e desistiu. Desistir tinha um gosto horrível, algo que lhe lembrava ovo podre. De qualquer forma, ele preferia, naquele momento, o ovo podre, e o gosto horrível que ele tinha a qualquer outra coisa. Sentia que desistir era a pior escolha possível, mas que era o que tinha que ser feito. Pra ele, se algo deveria ser feito, nada poderia mudar isso.
terça-feira, 13 de maio de 2014
Ambição
Sentou-se desolado no sofá da sala. Caia uma chuva fina. A janela, que estava entreaberta, deixava transpassar uma brisa fria e aconchegante. Ele recostou a cabeça entre as mãos, sem perceber. Parecia refletir sobre a vida, ou talvez sobre sua própria existência. Não tinha certeza. Poderia estar pensando sobre qualquer coisa naquele momento que continuaria fazendo pouco sentido. Conquanto sua vida estivesse estável, ele já não qualquer ambição.
domingo, 11 de maio de 2014
Ode to family
Começaram uma sociedade há mais de 18 anos. Como toda sociedade, os problemas financeiros vieram no outono de ano seguinte. Deles decorreram discussões com os contadores. Os contadores contavam tantas coisas que nem sempre era possível acreditar que fossem verdade. Quando a primavera chegava os problemas se auto-resolviam. A empresa se mantinha. Só não resistiu à depressão de 1989, causada pela quebra de lealdade.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
Des=temido
Temia morrer. Temia não ser lembrado. A comunicação global era tão avançada que ninguém parecia se lembrar de muita coisa. Era difícil lidar com tanta informação. O que significava morrer num mundo de esquecimento instantâneo? Ninguém respondia essa pergunta. Ele não seria o primeiro a questionar esses temores da sociedade.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Traição
Andava olhando a lua. Uma distraída que só, uma apaixonada. A lua era só aquele sorriso lindo de amor e ela sorria de volta. E ela, apaixonada pela lua, nem notava que o que tinha ali não era paixão, nem amor, era uma obsessão doentia. Um dia olhou pro céu e não viu a lua. Achou que não a amava mais e a traiu com o sol da manhã.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Elephant Woman
Morava na rua, mas era limpinha. Entretanto, ninguém gostava de olhar para ela. Parecia repugnante. Portadora de uma doença contagiosa. Parecia coberta de lixo e com cheiro de esgoto. As pessoas a olhavam com reprovação. Ela conseguia distinguir dó de nojo no modo deixam as moedas cair no chão. As moedas caiam como que sendo um pedido a Deus. Pediam para nunca serem acometidos por aquilo. Eles tinham medo dela, embora parecesse completamente inofensiva. Se eles soubessem que o que a acometia era falta de coragem para encarar a vida, talvez a ajudassem.
terça-feira, 6 de maio de 2014
Longe
O amor que tinha estava longe. Longe demais para as mãos quentes. Longe demais para o beijo molhado. Longe demais para o desejo quente como o meio dia. Longe demais para o sussurro sacana no ouvido. Longe demais para o selinho de bom dia na testa. Longe demais pro café da manhã depois de uma noite de sexo. Longe demais para quase tudo. Mas o que era importante não conhecia distância: amor não mede quilômetros.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Spider
Lá no alto estava ela. Quem olhava debaixo tinha a impressão que estava suspensa no ar, mas eram cabos. Ninguém sabia o que ela fazia lá, parecia natural a ela fica lá. Ninguém quis perguntar. Alguns olhavam, mas sem dar muita atenção. Assim ela viveu. Suspensa e intocável. Solitária e incompreensível.
sábado, 3 de maio de 2014
Pete Murray
Talvez fosse alguma equação insignificante que agisse dentro da mente. Talvez apenas lembranças que voltam com o cheiro das coisas. O fato era que apenas lembrar ou ouvir uma música do Pete Murray o transportava, e lá ele podia tudo. A brisa do mar, o descompromisso com a realidade e a liberdade. Era aquela realidade que o revigorava.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Justiça
Estava estirada no chão quente. A pele estava alva, o corpo sujo de poeira e lama. Os olhos abertos e sem brilho. A multidão se aglomerava em torno daquele monte de carne, num ritual combinado de lamentação e justiça. Ninguém sabia o nome da defunta. Havia hematomas por todo o corpo. O linchamento ainda acelerava o coração dos linchadores. A sensação de insegurança acometia a multidão que, completamente iludida, acreditava que era justiça.
terça-feira, 29 de abril de 2014
Notícia moderna (4)
Mulher que fez dezenas de plásticas para ficar parecida com a Barbie, processa a Barbie por plágio do seu atual nariz e das covinhas em "local estratégico" das bochechas. Até o momento, a Barbie não se pronunciou.
domingo, 27 de abril de 2014
Sonho
Estava em um sonho terrível. O lobo mal havia invadido sua casa, durante a madrugada, e o havia comido vivo. Durante o ato o lobo olhava seus olhos perderem a vida. A cena era terrível, e ele pensava no próprio sonho que não podia ser uma premonição, já que lobo mal era ficção infantil, todavia o que ele não sabia é que o próprio sonho lhe matara.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Dia que esconde
Era um daqueles dias que causava um impacto logo ao acordar. O céu era claro, azul e limpo. O sol brilhava intensamente, e emitia calor em abundância. Ele tinha a sensação de que o dia escondia alguma coisa, mas era apenas gripe.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Inverno
Numa noite fria de verão. Acordou atordoada. O frio era terrível e, apesar de estar usando todos os cobertores disponíveis em sua casa, continuava a bater os dentes. Levantou e tentou ficar perto da lareira. Sem sucesso. Quando o relógio soou treze vezes, ela saiu de casa e o sol era tórrido. Sem alternativas, pediu calor ao ex-marido.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Maria
Maria era o tipo de mulher que todo mundo dizia que tinha o dedo pobre pra escolher homem, e tinha mesmo. Nenhum dos noivos lhe fora fiel, e pior, nenhum escondia as canalhices. Quando Maria já ia pelos vinte e poucos a família já começava a reunir e debater o futuro dela. Diziam que mulher sem marido era um pecado. Maria era resistente, não casava. Aconteceu, porém, que arranjaram o casamento. Maria, que resistiu o quanto pôde, viu-se obrigada, mas declarou: Caso, mas se ele tocar outra mulher eu mato. Casou. Após um ano de casamento, Maria não tinha o que reclamar do marido que, aos olhos dela, era fidelíssimo. Os vizinhos, todavia, diziam que ele usava luva com as outras.
sábado, 19 de abril de 2014
Jesus
Jesus, filhos de pais demasiadamente religiosos, até os 13 anos freqüentou a igreja. Depois disso só queria saber das menininhas, igreja não freqüentava mais. Jesus bebia, fumava e vivia a boêmia. O pai sempre resmungava: "onde eu errei", e Jesus ressaltava, entre umas e outras, que a existência, em si, repelia qualquer tipo de erro ou vício. Que a vida não comportava explicações teóricas, só experiência, e a experiência lhe dizia para viver sem restrições. Foi o que ele fez, até ser crucificado por não ter emprego fixo e diploma.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Pedro
De uma ignorância incomensurável, Pedro, não costumava viver, mas fazer o que era preciso. Casou-se com Ana, por exemplo, não por amor, mas simplesmente por que alguém da escola secundária disse que ele não poderia fazê-lo. O ápice da ignorância de Pedro se deu quanto, numa viagem ao Chile, algum residente falou algo que ele não entendeu o que era, até por que Pedro não entendia nada em outro idioma, mas lhe pareceu um desafio. Ocorre que o residente havia falado "Andar en Vulcan", que deveria ser traduzido como: pilotar a moto "Vulcan", entretanto Pedro, sem ouvir ninguém, já começava a subir Quizapu.
terça-feira, 15 de abril de 2014
Helena
Conhecida como bisturi da morte, Helena, 34 anos, morena, olhos claros e vibrantes, corpo sinuoso, estava perdida na caverna do Aroe Jari. Saíra de seu chalé no centro da Chapada dos Guimarães bem cedo, pois o sol sequer havia denunciado o dia. O celular não funcionava no interior da caverna, e Helena começou a ficar nervosa com seu próprio perdimento. Quando já se iam mais de três horas de desencontros viu uma pequena luz, e, instintivamente, correu. Pisou num encontro de rocha, no que seu pé esquerdo sofreu fratura e ficou preso. Ela, como boa aventureira, havia levado alguns utensílios, entre eles uma faca. Quando começou a escurecer e a perna a gangrenar, Helena precisava fazer sua escolha. Ela pegou a faca... sabia o quer tinha que fazer. O único problema é que ninguém havia sobrevivido ao bisturi da morte.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Gim ou decadência
Um bar escuro, um solo de guitarra, uma dose de gim. Já bêbada, tentava se equilibrar com (ainda mais) dificuldade em cima do salto 15, os olhos já estavam borrados e fundos e a articulação de palavras era difícil como se estivesse aprendendo a falar. Desejava de todo o coração esquecer das horas anteriores, do beijo amargo, do puxão no braço, do pedido de desculpas, das lágrimas, do gim, do menino que beijou sem nem ver... tudo escureceu, afogou-se em uma poça de vômito ou de sua própria dignidade ao chão.
domingo, 13 de abril de 2014
A santa
Era desconfiadíssimo. Duvidava da mulher até nas coisas mais simples. Certa vez, quando eram ainda namorados, ela demorou - até demais - no banho, ele, desconfiado, foi verificar no banheiro. O sogro quase o esbofetou. Após o casamento, a desconfiança só aumentava. A única local da qual ele não duvidava era da igreja, e era lá que o tudo acontecia.
sábado, 12 de abril de 2014
Segunda-feira
Abriu os olhos com tamanha dificuldade. O quarto ainda estava escuro. O desejo de que fosse madrugada acabou-se com o barulho da chuva. Rastejou até o banheiro pouco sabendo o que fazia. Era segunda-feira, eram seis horas da manhã, era uma manhã tempestuosa e fria. Precisava de forças: preparou um café duplo extra-forte e escondido num canto do quarto, admirou a foto dela e a amou em segredo mais um vez.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
A vida
Queria encontrar o amor de sua vida. Tinha imaginado a cena perfeita. Pôr-do-sol. Ponte. Ele chegando, tímido e conversando. A vida só lhe ofereceu cerveja, Reginaldo Rossi e Joaquim Francisco, o matuto.
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Amor correspondido
Maria amava Lucas desesperadamente e vivia reclamando que não era correspondida enquanto afundava-se em chocolate, travesseiros e filmes onde desejava que Lucas fosse seu mocinho apaixonado. Lucas, no outro canto da cidade, amava desesperadamente Rita e, afundado em cervejas, bares sujos e música alta, tentava esquecer esse amor não correspondido. Enquanto isso, Rita dormia suavemente em sua cama. Rita era correspondida, amava-se apenas a si própria.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Leitor
Você que está lendo. Você mesmo. Essa história é pra você. A primeira vez que ela me veio a cabeça já tinha você como destinatário. Era como que uma carta, um e-mail, com remetente pré-destinado. Eu não pensava nas palavras, mas nos teus olhos ao tocá-las. Sempre soube, caro leitor, que você sentiria as palavras, como eu as sentia. O beijo que eu programei para o primeira capítulo do conto era pra você, era seus lábios que estavam lá. O protagonista morrer no final, é culpa sua. Eu vejo seus olhos agora mesmo sobre a cena. O protagonista esquartejado. A boca dele soprando sangue enquanto ele balbucia algumas palavras para seu algoz, e você com olhos de surpresa ou de entusiasmo. Você quis isso, você o fez morrer. A mulher do protagonista ficar louca e também morrer, também é culpa sua. Eu sei que você não se sente culpado. Que a morte deles não pesa em sua consciência, e que você não tem controle sobre a morte, inclusive aqui. Caro leitor, não se engane, esta história não é sobre o que você lê, mas sobre o que você é. Essa história é sua, você quem, de alguma forma, transformou-a no que ela é. Caro leitor, a responsabilidade é toda sua.
terça-feira, 8 de abril de 2014
Coveiro
Desde criança o pequeno Paulo afirmava que queria ser coveiro quando crescesse. Tal afirmação causava risos em alguns, espanto em outros, lhe perguntavam se ele sabia o que era ser coveiro, afinal. E Paulo descrevia rapidamente a profissão, reafirmando que era o que queria ser quando crescesse. D. Ana, mãe do pequeno Paulo, saia fazendo o sinal da cruz e dizendo: "Que é que esse moleque tem na cabeça? Quem gostaria de viver enterrando os mortos? Valha-me Deus!". Paulo cresceu e realmente virou coveiro. Foi uma das poucas crianças da pequena cidade que realizou um sonho de criança, era feliz e ninguém ainda tinha entendido o porquê da escolha daquela profissão, mas Paulo sabia: ele queria enterrar mortos diariamente para dar valor constante à vida.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Correria
Acordou atrasado. Pulou da cama e, sem tomar banho, correu para o carro. Olhava o relógio a cada minuto, como se o olhar, de alguma forma, diminuísse a velocidade do tempo. As ruas tinham poucos veículos, ainda assim ele furou todos os semáforos até o escritório. Subiu as escadas do escritório, pegou uma pasta que estava sobre a mesa, e saiu, sem sequer cumprimentar o porteiro. No meio do trajeto recebeu uma ligação. Ele era tão atarefado que até a morte marcou horário.
domingo, 6 de abril de 2014
As aparências enganam
Quando nasceu deram-lhe o nome de Angélica de tão doce e angelical que era. Cresceu linda e meiga com cabelos loiros cacheados e olhos azuis muito brilhantes e todos que a viam se encantavam instantaneamente. Angélica acostumou-se a conseguir tudo o que queria com a sua meiguice e face angelical. Foi assim que Angélica tornou-se uma das pessoas mais más que este mundo já viu, era uma terrível manipuladora, um demônio com olhar de anjo.
sábado, 5 de abril de 2014
Probabilidades
Sentou-se exatamente no meio da sala. Haviam cinco portas. Ele deveria abrir e entrar em apenas uma. A probabilidade era 1/5 ou 20% de encontrar o que procurava. Atrás de uma daquelas portas estava uma vida prospera. Queria abrir a primeira porta, mas sempre pensava se não era cedo demais!
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Sobre a vida
Dezoito horas. Final de expediente. A rua tão cheia de almas tão vazias vivendo em pessoas apressadas. Com a mesma pressa, infiltrou-se na multidão que corre contra o tempo da vida. Era mais um agora, mas não fora apenas mais um preso no escritório com a pilha de papéis durante as longas oito horas em que fingiu viver atrás da mesa? Corria para chegar em casa e viver a mesma vida medíocre.
quinta-feira, 3 de abril de 2014
No ponto de ônibus.
Era quinta-feira 13. Ele esperava o ônibus ansioso. Estava indo encontrar o amor de sua vida, que após 12 anos de casamento, resolveu abandonar tudo e viver o momento. Ele pegou o ônibus, foi até o local combinado. Ela não apareceu, pois o filho teve febre.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
O contador de estórias
Ele era um contador de estórias desde sempre. As mais magnificas, as mais surpreendentes, as mais incríveis e surreais estórias eram sabidas pela boca dele. Transformava em encantadoras as menores situações cotidianas com sua imaginação fértil demais. Para alguns era um lunático, para outros, um mentiroso compulsivo, mas poucos compreendiam que ele só transformava o mundo num lugar mais bonito e divertido, dando cor as coisas antes cinzas. E assim, de contar estórias foi que escreveu a mais bela de todas: a estória da sua vida.
terça-feira, 1 de abril de 2014
Problemas
Passeava pelo zoológico. Tentava espairecer, pois a vida estava tumultuada demais. Problemas. Eram os problemas que fazia tudo ficar complicado. Ele gostava dos problemas, mas era difícil conviver com eles sendo péssimo de matemática, como era.
segunda-feira, 31 de março de 2014
Casamento
Maria sonhava se casar. Quando criança só brincava de casinha, vivia com flor de laranjeira pregada no cabelo, adorava roupas brancas e chorava em todas as cerimônias de casamento que ia. Os anos passaram, Maria apaixonou-se por vários "amores da sua vida para sempre" e todos eles fugiram. Eis que Maria, na segunda semana de relacionamento, virava para todos na cama depois do sexo, dizendo: "Então, você acha que no mês que vem já podemos nos casar?".
domingo, 30 de março de 2014
Blackout
Desde criança tinha um medo absurdo do escuro. Já lhe haviam contado que no escuro tudo era igual ao claro, era só memorizar onde tudo estava e lá elas continuariam com as luzes apagadas. Entretanto, mesmo adulta, permanecia com aquele medo gigante do escuro. Um dia, caminhando por uma rua muito bem iluminada, eis que um de seus maiores medos acontece: um blackout total, toda a cidade de um instante para outro fica no total escuro. Alguém lhe toca o ombro, ela tenta gritar, mas o medo a paralisa. Uma mão na sua, um beijo, um amor instantâneo e o medo de escuro que foi embora para todo o sempre.
sábado, 29 de março de 2014
Perseguição
Vivia a vida sem dinheiro, sem esperança, sem nada. Tentava e tentava subir na vida, agarrar-se aquelas oportunidades que um dia mentiram pra ele que existiam na cidade grande quando, tão pobre quanto era agora, saiu fugido do sertão, da seca e da pobreza. O que não haviam contado pra ele é que a pobreza era rápida e perseguiu-o até a cidade grande, embarcada escondida na pequena mala.
sexta-feira, 28 de março de 2014
Delírio de uma manhã sem sábado
Sonhou que estava caindo. No começo gritou e tentou encontrar as paredes do buraco. Passados dez minutos o grito ficou menos intenso. Depois tentou ver o fundo do buraco. Passadas horas estava tranquila. Fazia tranças no cabelo, e nem roía mais as unhas. Depois brincou de natação na queda. Entediada dormiu no sonho, e sonhou que estava dormindo e que o sonho era sobre cair. Quando já se acostumava ao sonho, acordou. Estava caída no chão do banheiro, abraçada a uma garrafa de vinho barato!
quinta-feira, 27 de março de 2014
Normalidade
A vida tinha perdido o sentido. Já não fazia muita coisa além da rotina. Trabalho, casa, igreja, namoro. Acordou, num sábado qualquer, sentindo-se um robô. Quis continuar deitada, fazer algo anormal. Não tardou até pegar o óleo e aplicar nas juntas.
quarta-feira, 26 de março de 2014
Notícia moderna (3)
Astronauta esquece de comprar a passagem de volta e fica preso em marte. Em contato telefônico, o astronauta explicou que deixou para fazer o check-in de última hora, e acabou esquecendo de pegar a passagem de volta. Explicou que pretende voltar, mas vai esperar a baixa estação e que durante a estadia em marte vai plantar bananeira.
terça-feira, 25 de março de 2014
Chuva
Uma chuva fina caia lá fora, ela, de seu universo particular, observava com desdém os pingos tocarem a janela. Gostaria de ter um pouco mais de coragem de ir tocar os pingos de chuva com as próprias mãos, precisava lavar-se na chuva das sujeiras que sua mente construiu quando o coração desistiu de amar. Afogava-se em desamor, precisava ir afogar-se na limpidez da chuva.
segunda-feira, 24 de março de 2014
Notícia moderna (2)
Modelo caiu. E, ao que tudo indica, não levantará durante algum tempo. Os especialistas dizem que isso é normal na carreira, todavia parece que era só descostura.
domingo, 23 de março de 2014
Notícia moderna (1)
Cachorro quente é encontrado caído no chão da praça central. Segundo os veterinários que atenderam ao chamado, ele corre risco de vida, pois o dia é de chuva.
sábado, 22 de março de 2014
Um dia de sorte.
Olhava pela janela do quadragésimo andar do World Trade Center. Sentia-se no topo do mundo. Uma sensação de completude lhe encheu o peito. Queria viver aquilo pra sempre. Antes de sair do prédio soube que havia conseguido o emprego almejado. Sentia que feliz e realizado. Combinou de voltar no outro dia. Por sorte ou não, enquanto saia ouviu o primeiro avião colidir com o edifício. Queria chorar ou rir, mas ficou sentada no chão inerte olhando o prédio cair!
sexta-feira, 21 de março de 2014
Liberdade
Amava a liberdade, fazia de tudo para ser livre: amar livre, viver livre. Mas um dia, alguém entrou na sua vida e comeu toda a sua liberdade. Tinha dentes afiados e um cheiro tão bom; deixava marcas pelas coxas e pelo quarto. Apegou-se em viver a liberdade dele, mesmo sabendo que aquilo consumiria a sua. Entregou-se e escolheu não ser livre, depois arrependeria-se amargamente disso (ou não).
quinta-feira, 20 de março de 2014
Amor em pessoa
Era um amor de pessoa. Quem o conhecia o achava gentil, extremamente gentil. Gostava de agradar. Porém, excedia. Excedia no agrado. Levava flores toda semana à sua esposa. Aos domingos servia café da manhã na cama. Fazia declarações públicas e íntimas de amor. A esposa não suportou. Na madrugada de domingo ela sumiu. Ao meio dia ele já servia a nova esposa.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Sorte e azar
Era um azarado nato. Vivia a vida perdendo por todos os cantos e todos os jogos. As pessoas, procurando animá-lo e acreditando também naquilo lhe repetiam sem parar: "Não se desespere, amigo! Pois já é sabido, quem tem azar no jogo, tem sorte proporcional no amor." Viveu a vida acreditando que teria um amor desses bonitos e longos. Mas o tempo passava e esse amor nunca chegava, tranquilizava-se pensando que talvez nunca fosse ter vários amores, mas sim um definitivo e que esse ainda se demorava, mas chegaria. Na velhice, solitário como sempre foi, sem amor, com sorte apenas em ter azar, foi que ele descobriu pesadamente que o amor é um jogo.
terça-feira, 18 de março de 2014
O perfeito
A vida estava muito perfeita. A cidade em que ele morava não tinha violência. Não se ouvia falar em doenças. As pessoas eram educadas, e dividiam as riquezas entre si, de forma que ninguém fosse pobre ou rico. O único problema residia na arte, na música e na literatura. Eram perfeitas demais. Não tratavam sequer de ficção. Quando um homem se arriscou a escrever um poema sujo, foi expulso da cidade. O poema fora banido. Contam, contudo, que após esse dia existe tráfico de poema sujo, e que o poeta começou a traficar música, literatura e poesia. Na cidade, as mascaras continuam firmes.
segunda-feira, 17 de março de 2014
Esperas
Ele estava cansado de tanto esperar: esperar o café sair,
esperar o ônibus, esperar o aumento, esperar o almoço ficar pronto, esperar a chuva
parar, esperar a felicidade bater, esperar seu time ser campeão do campeonato
nacional. Tanto resmungava esperando que não notou que, enquanto esperava, a vida
passava por suas mãos e acabou vivendo esperando a morte chegar.
domingo, 16 de março de 2014
Ponto
Sempre às 18 horas, quando o dia já estava por se esconder, ele aparecia e se sentava no ponto de ônibus. Não falava com ninguém. Apenas esperava. Já se passavam mais de dois anos que essa rotina se refazia diariamente. Um dia ele não apareceu. Disseram que ele tinha morrido. Disseram que ele fora internado. A verdade é que ele nunca estivera lá.
sábado, 15 de março de 2014
Sorrisos
Procurou um sorriso em cada esquina. Muitos lhe sorriram, mas ela, preocupada com um específico nem notou, nem sorriu de volta. Andava triste pelas ruas, nem as estrelas, nem o sol da manhã lhe faziam sorrir. Ele havia ido embora, levado consigo seu sorriso e o dela que dependia dele. Ela, mesmo contra a vontade, haveria de reaprender a sorrir sem ele, porque o sorriso dele já tinha nova morada.
sexta-feira, 14 de março de 2014
A curiosidade
Ela recebeu uma carta. Um envelope aparentemente normal. O envelope era branco, estava selado e aparentemente não continha violação. A única anormalidade era a ausência de identificação do remetente. Ela abriu o envelope e retirou a carta, embora tivesse medo de algum mal lhe ocorrer. Na carta havia os seguintes dizeres: "Encontre-me hoje às 19 horas na praça central. Use um vestido vermelho, salto branco e arco no cabelo". Não sabia o que fazer. Ir a um encontro às escuras parecia loucura, mas estava curiosa. Foi apenas de vestido vermelho. Ao chegar à praça ficou longe. Olhou o movimento. Tomou coragem, dirigiu-se à praça e sentou-se. Esperou. Esperou. Esperou. Às 19 horas estava assustadíssima. Tremia. Fechou os olhos esperando o pior. Nada aconteceu. As horas passaram. Quando deu 21 horas ela resolveu ir embora. Alguém gritou, ao olhar foi atropelada. Antes de morrer amaldiçoou os acessórios que deixou de usar.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Progresso
Olhava para o relógio a cada minuto. Sabia que estava atrasado, mas para quê? Ele não fazia ideia do que deveria fazer e não estava fazendo. Tentou dormir, sem sucesso. Levantou várias vezes durante a noite. Assistiu televisão. Tomou banho morno. Nada o fazia lembrar. O relógio continuava a incomodá-lo. O tempo passava e ele não tinha ideia do que havia esquecido. Quando o relógio marcou cinco horas da manhã ele apagou de cansaço. Dormiu durante dois dias seguidos. Ao acordar a primeira coisa que fez foi jogar o relógio no lixo do banheiro.
quarta-feira, 12 de março de 2014
Dia 04
Refazia as malas. O aeroporto o esperava. Ele esperava mais de si mesmo. Sempre esperou. Achava que as pessoas sempre esperavam que ele fosse mais do que era. Que se superasse. As expectativas, naquele dia, foram tomando proporções anormais. Estava chegando ao aeroporto. As malas estavam feitas. Ele olhou para trás como se esquecesse algo. Viu o mar, o céu e o sol. Olhou para frente. Viu pessoas correndo. Os relógios fazendo barulho. Olhou para o mar, fechou os olhos. Pensou novamente que estava esquecendo algo, e esquecia: a liberdade.
terça-feira, 11 de março de 2014
Sonhos
Vivia reclamando com todos que nunca sonhava. Almejava infinitamente sonhar a noite inteira com terras desconhecidas, seres mágicos, experiências que não poderia viver na vida real. O que ela não sabia é que enquanto todos conseguiam sonhar só dormindo, ela conseguia sonhar acordada e eram esses os sonhos mais bonitos que qualquer pessoa poderia ter.
segunda-feira, 10 de março de 2014
Dia 03
A noite caía. Tudo era tão profundo quanto o oceano que se espalhava negro pelos cantos da estrada. O sono presumia um dia longo. A noite era calma. A estrada era mansa. Só uma coisa faltava. Haviam esquecido de pendurar a lua no teto. A falta da lua deixou a noite carente, e chorosa. A estrada era mais escura, a vegetação mais silente, a noite mais profunda. Só o oceano continuava cantando, todavia parecia chorar (no fundo).
domingo, 9 de março de 2014
Amanhecer
Era noite quando ele chegou. Não havia estrelas, nem lua, só
uma escuridão impar e um frio congelante. Há tempos que era noite e parecia que
nunca ia amanhecer novamente, mas ele veio e trouxe consigo um sol suave de
primavera e o dia foi enchendo-se dentro de onde antes era noite.
sábado, 8 de março de 2014
Dia 02
Horas passavam rápido. O chão estalava. O sol queimava a pele branca, e o sorriso aumentava a medida que os cavalos nos levavam até onde os quilômetros eram mais azuis. O horizonte era mais terno, a brisa era mais doce, o céu era mais amoroso a medida que o carbono preto queimava no petróleo preto. O sorriso aumentava. O coração amansava. A vida aumentava. Todos paravam pra ver que a vida sossegando na maresia, e a vida não era mais vazia, era poesia. Só poesia.
sexta-feira, 7 de março de 2014
Química
A música minimalista enchia o pequeno comodo, os ouvidos e o coração. Ela aproveitava-se dos acordes leves para diluir com lágrimas o último-futuro-grande-amor que não foi. Parecia tão ele, parecia tão eterno, parecia tanto. Descobriu que eram grandes aparências, pequenas verdades e agora procurava um novo amor pra juntar o mel do novo, as lágrimas do velho e reequilibrar as concentrações químicas do coração.
quinta-feira, 6 de março de 2014
Dia 01
Ele olhou para a selva de pedra. O barulho era intenso. Não se via muitas pessoas, senão dentro de carros. A natureza morta de metal se estendia por todo os cantos. Tinta e cores neutras. Era pra ser o paraíso, era pra ser a natureza viva. Era pra ser diferente, mas era só mais um dia de sol.
quarta-feira, 5 de março de 2014
As dores e a chuva
Lá fora chovia. Chovia eternamente. Chovia enquanto escurecia. Chovia enquanto amanhecia. A água tão límpida lavava todas as dores do mundo e insistia em cair porque as dores vinham sempre de todos os lados e de todas as pessoas. E se um dia o coração humano parece de sentir dor, será que a chuva deixaria de cair?
terça-feira, 4 de março de 2014
Recortes
Estava sentado. Olhava de longe o show. Sentia-se solitário. Não conhecia ninguém, e era tímido demais para conseguir uma amizade instantânea. Quando a banda começou tocar moonshine ele sentiu uma dor lancinante. Parecia saudade. Começou a chorar de dor. Num susto se viu no palco declarando-se para o seu novo amor de todo sempre.
segunda-feira, 3 de março de 2014
O passado sonhado
Sentada numa pedra no quintal, sentia o sol nos cabelos e lembrava de épocas distintas da sua vida. Um turbilhão de lembranças antagonizavam aquela expressão facial tão serena que tinha. Lembranças que faziam sorrir, lembranças que traziam alguma ponta de dor de longe, lembranças coloridas de rir, lembranças de amores quentes... As pessoas do mundo achavam que ela sonhava com futuros distantes e melhores, mas os sonhos dela eram de passados que não vinham.
domingo, 2 de março de 2014
Crime de carnaval
Um grito. Pessoas desesperadas correndo. A situação era sem precedentes. O pavor nos olhos das pessoas amedrontava. O carnaval continuava, a festa não parava. Ouvia-se choro. Via-se o desespero. Ninguém acreditava. Pessoas estavam sendo esmagadas pela multidão. A sirene tocava. Os policiais corriam para o palco. Era o maior crime já visto. Era música clássica sendo tocada em pleno carnaval.
sábado, 1 de março de 2014
A frieza
Na vida dela todo o amor sempre foi morno. Não que amasse pela metade, não que faltasse boa vontade. Talvez fossem os amores dela que fossem mornos demais, talvez fosse com eles o problema, deviam se entregar de menos, amar de menos. Essas eram as desculpas que ela dava, a verdade é que ela era fria e amornava todos os amores.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Modernidades
Ele assinava o jornal. O carteiro entregava o jornal. A mulher dele deixava o jornal sobre a mesa toda as manhãs. Depois ela preparava o café da manhã. Ele descia pegava o jornal, o colocava no colo, tomava café, e, sem perceber, deixava o jornal sobre a mesa e saia. Não lia uma linha. Chegava normalmente às sete horas da noite, sempre cansado demais para o jornal. As notícias já não eram lidas havia anos, mas o carteiro continuava entregando, e ele assinando. Ele não tinha tempo, e a mulher dele tinha whatsapp.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
A felicidade
Por toda a vida procurou a felicidade. Estudou muito; trabalhou duramente das oito às dezoito e mais as horas extras; comprou uma casa grande com gramado verde e uma piscina que usava em festas e ocasiões especiais; casou-se com uma mulher linda e de boa família, adorável, mas um pouco mais sem graça que aquela sua namorada considerada um pouco maluca pela sociedade; teve um casal de filhos encantadores - ao menos era assim que ficavam no porta-retrato da mesa do trabalho.
Um dia uma dor lancinante levou-lhe a vida e num último suspiro ele percebeu que perdeu a vida toda que poderia ser feliz tentando ser feliz.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Dia especial
Era quarta-feira. Ele esperava ansioso por aquele dia. Estava nervoso. Batia os pés. Roía unhas. Não tinha atenção no que as pessoas falavam. Quando deu meio-dia saiu para almoçar e não voltou para trabalhar. O chefe preocupado ligou para a família. Ninguém sabia o paradeiro dele. A mulher já estava na delegacia fazendo um boletim de desaparecimento quando deparou com o marido gritando na geral do Maracanã. Era final de campeonato, não havia nada mais importante.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Constelações
Com um toco de giz desenhava estralas distraída na calçada enquanto as estrelas no céu não apareciam. O dia caia, o frio voltava, o negrume ia pouco a pouco tomando conta do céu. Junto com o céu que enegrecia, escurecia também o coração dela, mas ela nem achava isso ruim: dizia que era no escuro do seu coração que a constelação com o sorriso dele aparecia.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Os mundos
Era noite de natal. As pessoas festejavam. Fogos iluminavam o céu desanuviado. As pessoas se abraçavam, embora mal se conhecessem. Ninguém fazia plano no ano novo. A vida era justa, alguns diziam perfeita. Ninguém reclamava de economia, política, saúde, educação. Ninguém reclamava. Existiam autoridades, porém só eram úteis no despachar de papéis de resoluções do povo. Era tudo perfeito (na tela)!
domingo, 23 de fevereiro de 2014
O som da solidão
Gostava do silêncio externo da solidão. Gostava de ficar só no quarto e na vida, sabia que a solidão lhe era uma sina, portanto tão cedo aprendeu a aprecia-la. O único problema é que era um apreciador do silêncio e a solidão só era silenciosa ao redor, dentro dele, o barulho de ideias desconexas fervilhando era insuportável.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Anoitecer
Quando anoitece a vida se transforma. Quem sonha sabe. O céu muda de um azul claro para um preto profundo. O anoitecer é o segredo do dia. No noite que a vida se dissipa. Tempo se esvai. A moça se decai. O jovem se corrompe. O dia rompe. Ao anoitecer ele saia de casa, mas nunca voltava.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Cansaço
Cansou de esperar. Estivera sentado por muito tempo. Tanto tempo que não tinha ideia de como fora parar naquele lugar. Não se lembrava de muita coisa importante. As coisas importantes tinham desaparecido de sua mente. Estava como que em coma. Os sonhos eram coloridos, mas não sabia nada de cores. O céu era azul? Ele não tinha certeza. Estava cansado e sentado, mas levantar era tão duro quanto ficar. Ele resolveu que não resolveria nada. Estava cansado. Estava sentado. Estará.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Dias quentes, noites geladas
O sol ardia-lhe a face num beijo caloroso. Infelizmente para ele, o amor não era correspondido e ela deitada na cama fazia de tudo para evitar que ele chegasse até seus olhos em vão. Ela estava cansada desses amores quentes e por isso, gelava todos com o gelo de suas tantas doses de uísque. A ressaca agora vinha como fogo de mil dragões e consumia não apenas o estomago, mas também o coração que queria estar vazio, mas queimava de paixão.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
O cego ou combinado não é caro.
Ter nascido cego lhe custou trinta anos de escuridão. Não tinha sonhos, exceto um: não ser cego. O dia chegou. Era agosto de 2115, e os avanços tecnológicos permitiriam que ele voltasse a enxergar. Todavia, o custo era alto. Ele precisaria vender a alma para o demônio para ter sua visão. Fez o possível e o impossível, e o grande dia chegou. Na mesa de cirurgia, enquanto os médicos se preparavam para a operação, ele desistiu. O diabo, contudo, não perdoaria a dívida.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Entre a luz e a escuridão
Caminho nenhum havia naquele quase nada ser: entre a luz e a escuridão as formas não tinham nitidez alguma. Não sabia como os devaneios haviam a levado até aquele lugar entre meio a tudo no mundo e, muito pior do que isto, não sabia como poderia sair dali. Pensava que talvez aquilo fosse a exata definição da loucura. Ou não, afinal, loucura tem definição exata?
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Realidade
Colocou Stellar do Incubus para tocar no modo repetido. Recostou-se na cadeira. Tentava imaginar o que a música estava lhe dizendo. O som era triste. Melancólico. Não sabia o que deveria entender. Não entendeu nada. Apenas fechou os olhos, e rezou para não acordar mais. Acordou, sempre acordava.
De súbito e com um pulo, abriu os olhos e notou que a realidade ainda era a mesma a sua volta: triste. Mais triste do que a música que continuava a tocar e ela continuava a não entender. Os mesmos livros ainda estavam a sua frente, a mesma rachadura na parede, a mesma dor no coração, a mesma vontade de não acordar mais.
No fim só queria dormir. Um sono de Alice. Passar horas em devaneios reprisando fantasias da infância. Entretanto, estava acordado há dias. Já não sabia o que era dormir. Alucinava. Ouvia vozes. E num devaneio, entre o vigília e a penumbra, piscou o olho. Depois disso não se recuperou, ficou entre a luz e a escuridão.
De súbito e com um pulo, abriu os olhos e notou que a realidade ainda era a mesma a sua volta: triste. Mais triste do que a música que continuava a tocar e ela continuava a não entender. Os mesmos livros ainda estavam a sua frente, a mesma rachadura na parede, a mesma dor no coração, a mesma vontade de não acordar mais.
No fim só queria dormir. Um sono de Alice. Passar horas em devaneios reprisando fantasias da infância. Entretanto, estava acordado há dias. Já não sabia o que era dormir. Alucinava. Ouvia vozes. E num devaneio, entre o vigília e a penumbra, piscou o olho. Depois disso não se recuperou, ficou entre a luz e a escuridão.
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