segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Desordem

O céu descoloria.
Cor, arco-íris caia!
Gotículas de sapo escuro!
Púrpura semente puro.
O céu de calor ria.
Cor, arco cinza pia.
Regozija preto furo,
Bebendo teto escuro!

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Raiava-se: poluto.
Ingrato. Insolente. Inconsequente.
Sentia-se mais gente que a gente,
Era mais que mais e nada além!
Era pobreza, 
ainda que em sua alteza.
Cheira sujeira, e pó de enxofre.
Até aparentava-se doce,
Mas não!
Não era nada além
De versos sem sentido
Num muro velho e desgastado
Da rua abandonada pelo tempo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Iluminação

Tem horas que o riso vai:
Escurece o mundo e o dia.
E ninguém conta pra gente
Quando é que vai clarear.

Mas sempre há um sorriso:
Bobo e bonito sorrindo
E uma luz se faz porque
Um amigo iluminou o dia.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Em dias de sol, escurecia.
Em dias cinzas, floria.
Nas noites, lampejava.
Nas madrugada, existia.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Sem medida

Nunca teve medida para nada na vida. Para tudo era grande, exagerado... ou, em algumas ocasiões, pouco, nada! No primeiro amor doou-se como se fosse eterno, comprou-lhe o maior e mais caro dos diamantes e ela partiu deixando o coração estilhaçado no chão. Resolveu mudar, mas não sabendo usar nada com moderação e ainda sem medir nada, no próximo amor não amou. Apenas esteve ali, parado, sem emoção, sem tesão... Ela terminou. Ele sentiu falta do coração despedaçado de outrora, que sofria, mas ao menos sentia e voltou a amar sem medidas.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Atlas

Atlas diria, talvez, que não é o peso,
mas o sentimento além dele a tortura.
Carregar o céu pode não ser loucura,
mas não manterá ninguém ileso.

No desabrochar do sentir indefeso,
reagimos ora com pena, ora com dor,
ora simplesmente sem nenhum calor,
ora conformado, ora perdido, ora preso.

Por mais que digam da liquidez,
jaz ali a eternidade num momento.
E quem sabe sentir a sensatez

n'um agudo pesar de ressentimento,
sabe apenas que nada sabe, talvez,
pois desconhece o puro sofrimento.

sábado, 8 de agosto de 2015

Cópias

Era bem-sucedido, mas fracassava. Era intrépido, mas se deixava levar por decisões notoriamente erradas. Era altruísta, mas esquecia de si mesmo. Era ilusões, e deixava de se perdoar, apesar dos pesares. Queria reconhecer-se maior, mas deixava o pior florescer. As vezes confundia-se com si mesmo. As vezes o si mesmo o confundia. Era tantos, era prantos, era cantos. Ilusões, fantasmas, pulsações. Não sabia, mas no florear do dia, renascia. Ilusão, uma cópia infiel da solidão. Ilusões do nascer do dia até a tarde sombria. Ilusões de progresso, sem sucesso.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Agonia

Acalma-te. O tempo cura tudo! Ouvia isso de si para si. Não curava. Algumas feridas eram perpétuas, pensava. Eram tão profundas que transcendiam. A alma sofria. A quê deveria recorrer? Não recorria. Deixava estar. Só a morte cuidaria, e essa realmente cuidava de tudo. Enegrecia a vida. Queria estar errado quanto a isso, mas era racional demais pra procurar provas onde não haviam sequer ilusões. Não era de esperar. Nem a morte. Um duelo. Estava doente, estava ínfimo, estava perdido. Já não renascia junto com as máscaras. Queria morrer, queria curar. Queria conceber uma vida verdadeira, ou se tornar a própria ferida, e ser a causa. Entretanto, a vida e a morte ninguém escolhe, e ele sabia disso!

sábado, 18 de julho de 2015

Realidades adversas

As máximas eram como lembranças não vividas. Olhava o céu e tentava se ver além dos trovões. A calda aquática era como sua infância. Esquecia-se nos pés suados de lama. Permanecia. Queria ser mais que propósitos ouvidos numa desconcertada alegoria de pássaros. Era trovão, mas silencioso como as máximas que cantarolavam os pecadores impecáveis. Se deixava ser, a não ser que houvesse em si uma mentira verdadeira que precisasse evoluir para fantasmas. 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Entregas

E naqueles dias cinzas, amava com o coração cheio. Cheio de cinza, cheio de amor, cheio de não estar sozinho como o velho guarda-chuva que alguém esqueceu por não ter mais medo da chuva.
Apreciava cada pingo de chuva como se fosse calda de caramelo ou algum outro doce igualmente saboroso. Era livre enquanto andava pela chuva, era livre enquanto a olhava pela vidraça e prometia todo o seu coração molhado.
Não tinha mais medo nem da vida, nem da morte, entregou-se: a chuva, ao cinza, ao amor, a ela...

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Réquiem

Deitara-se. Os restos plantavam-se na solidão. A colisão de sensações cantarolavam. A sombra recheava o chão de frio. O réquiem condenava as almas à dançarem à luz da tristeza. Sem vigor as trevas fizeram pista, e o choro tornou-se o hino.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Futilidade

Tornava-se, a cada novo dia, mais fútil. No começo não se dava conta. As coisas eram tão naturais que passavam sem serem sentidas. A natureza morria ao redor, e ele não percebia. Deixava-se levar pela futilidade, porém a sensação de morbidez começava a devassá-lo. As vezes sentia a falta de sentido das coisas, sem se dar conta da causa. Os efeitos começavam a aparecer. A consciência começava a cobrar a dívida de uma vida solitária e pobre. O espírito morria, e ele também. Até que pereceu espiritualmente, e vagou sem consciência pela terra em plena ignorância!

sábado, 16 de maio de 2015

Enoitecido

Refúgio escuridão. À noite a realeza conhece a si mesma. Em si, enoitecido, os voos são rasos, e tudo o que há é mais que o que será. Os homens são projetos. Naturais. Imperfeitos. À noite o mar ecoa as trevas perpétuas. À noite ninguém é mais que si mesmo! Enoitecido o fruto é criador... e o tempo faz do homem perdedor. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Noite

Era madrugada. Andava aparentemente sem destino pelas ruas lúgubres da cidade. As vias eram escuras e sujas, repletas de restos humanos (vivos ou mortos). Suas mãos estavam sujas, eles estava sujo. Ninguém notava, inclusive ele mesmo. Ele continuava andando, e não dava atenção ao trânsito desordenado. Um homem sentado disse ao vê-lo passar: - "Aquele parece buscar a morte!". Talvez fosse isso, mas a morte - desatenta - não fez questão.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Ilusão

Convivia com tantos problemas que - com o passar dos anos - tornou-se uma pessoa indiferente. Tinha consciência de todos os problemas que enfrentava, mas não os enfrentava. Resmungava, a ponto de se tornar insuportável até para si mesmo. Quando a vida tornou-se absolutamente intragável ele parou de viver, imaginando ser essa a solução. Era ilusão!

Eclipse

Sentara num boteco. Resolvera que ficaria ali até o outro dia, bebendo e esperando o dia amanhecer. O dia não amanhecia, e ele se escureceu completamente.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Ressureição

Dormia todas as noites pensando em seu destino. Pensava em como era difícil ser ele mesmo. Fazer as escolhas que lhe convinham, tratar-se com aquele desleixo natural das pessoas sem um pingo de amor-próprio e sobretudo sentindo-se um completo inútil. A vida não era fácil, mas ele dormia!  E ressuscitava todas as manhã sem expectativas de noites melhores.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Herança maldita

Ele era um homem comum. Desses que a gente vê em todas as esquinas de todas as cidades. Nasceu ouvindo do pai "Engole esse choro, moleque de merda. Homem que é homem não chora.", a mãe nunca o deixou lavar uma louça, até porque, se fizesse isso, levava safanão do pai quando este chegava tarde da noite embriagado.
Nisso, tornou-se o mesmo homem que odiava tanto quando criança, tornou-se o único homem que sabia ser, já tinha entendido que era um "homem de merda" e assim perpetuava essa herança maldita gritando com o filho, batendo na mulher, embriagando-se, cantando as meninas pelo caminho.


terça-feira, 17 de março de 2015

Marcela

De manhã Marcela chovia. Se arrastava até o trabalho com uma falta de esperança digna de fazer uma criança desejar voltar instantaneamente ao ventre materno por entender que a humanidade está mesmo perdida. Ao passar do dia Marcela ia ensolarando, um sorriso brotava e uma pequena luz de esperança vaga e boba acendia seu olhar. Aos sábados, Marcela brilhava no esplendor da noite pra depois, florescer nas manhãs de domingo. E todos os dias, Marcela era meu amor.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Chuva

Ela tinha uma conexão com a chuva. Sentia que a chuva realmente lavava sua alma e tinha uma conexão íntima consigo. Podia ser, quem sabe, a natureza dela se conectando com a do universo. Algum tipo profundo de serenidade que, através do esquecimento de tudo, as coisas se tornassem mais simples do que eram. Ela não sabia explicar, e não queria. Gostava da sensação de acolhimento, amor e afeto que a chuva lhe proporcionava. Quando, já bem velha, ela se deparou com uma chuva deliciosa e insistente, ela se deu conta de si e virou chuva.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Carnaval #1

As pessoas gritavam. Luzes, barulho e um cheiro forte de urina impregnavam o ambiente sujo. Ninguém se olhava. O rebanho seguia a ordem do trio-elétrico. Felicidade parecia reinar, ou talvez fosse apenas uma imagem surreal de um mundo ilusório. Enquanto alguns pares se pegavam, outros se matavam. Alegria e tristeza. Vida e morte.
Nesse mundo obscuro, um homem andava tão invisível quanto se podia ser. Ele sentia, às vezes, que de tão invisível as pessoas podiam ver através dele. Era completamente desnecessário para o mundo, exceto por ser ele quem limpava toda a sujeira. Ser desnecessário fazia parte do seu papel.
Aquele mundo era ideal para o trabalho que prestava, pois enquanto ninguém olhava ele, com seu uniforme, arrastava a sujeira para os rios, tumbas e sarjetas.
Naquela noite em especial ele tinha muita sujeira pra limpar, e ninguém se importava. Era assim que, enquanto o som e a gritaria ecoavam, ele fazia a limpeza, e, aos seus olhos, deixava o mundo melhor.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Perdimentos #1

Arrependia-se muito! Vivia sob os olhos amargos e pesados do censor. A censura era natural em sua vida. Viver trinta anos sob o efeito destas drogas fazia muito mal às suas predileções, mas ele queria ter o direito de reagir. Cadê a coragem nessas horas? Ele queria fugir (e tenho que comentar que ele sempre fazia isso), mas quando a fuga era de tudo e todos, ele não tinha coragem. Não era completamente covarde, apenas um daqueles caras moles que tinham medo. O medo estava escondido em tudo, e por que viver sem ele (ele pensava). Por algum motivo o medo (pra ele) representava o meio de defesa do mundo, mas não era só isso. Não era. Era um mundo solitário, pesado, constrangedor e muito conflituoso. Ele queria prometer deixar o medo. Ele realmente queria. Seria uma separação dolorosa e inesperada. Nem carta de despedida deixaria. Simplesmente abriria a porta e tomaria um rumo qualquer. Tinha certeza de que a coragem o esperaria do lado de fora da porta, mas abri-la requereria muito mais dele. Talvez outros trinta anos, talvez choque, talvez uma nova dimensão. Quem sabe? Ele até chegou a abrir a porta, algumas vezes, mas, antes de sair, sempre olhava pra trás!

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

- Mãe, por que eu não posso voar?
- Oxê menino! Mas que pergunta é essa agora? Você não é pássaro, é menino.
- Mas mãe, por que eu não posso voar?
- Porque menino não voa, ora essa. Mas era só o que me faltava esse tipo de pergunta agora.
- Tá, mãe. Eu não tenho asas como os passarinhos, mas não tem como voar dentro de aviões?
- Ah, menino... Talvez para nós seja mais fácil criar asas do que voar dentro dessas máquinas de ferro voadoras.

Ele fez uma cara entristecida e carregou o sonho porta afora. O ar quente abafou-lhe a face e os urubus que voavam no gado morto de sede pareciam debochar dele. O sonho murchou. Para sempre.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Morte

Quando no fim da vida se deu conta de que tivera uma vida maravilhosa. Tivera um bom emprego que lhe rendia bons salários. Tivera uma família bonita e alegre. Tivera muitos bens e gozou da boa vida. Qual o motivo do vazio, então? Não sabia explicar o vazio! Sempre fez o que deveria ser feito, não obstante isso não se sentia realizado e preparado para a morte, mas morreu mesmo assim!