Ela havia descoberto a cura para todas as doenças existentes, mas sabia que se divulgasse naquele momento as pessoas que precisavam do tratamento não teriam acesso a ele. Quando, em tom ultrassecreto, informou seu amigo e companheiro de pesquisas que havia descoberto a cura, e que distribuiria a fórmula sem custos, ele a alertou que ela mataria mais que Hittler, que haveria superpopulação nas cidades, miséria, superlotação dos sistemas de saúde, etc. Ela não sabia o que fazer. Quando criou a cura, esqueceu-se que a morte tem mil faces.
domingo, 25 de maio de 2014
sexta-feira, 23 de maio de 2014
Caminhos
Ele quis acreditar que era verdade. O mundo conspirava pra ser. Ele sorria, ela também. Ele era uma pessoa normal, e ela uma pessoa de sucesso. Isso não fazia diferença, pensava ele. Quando ele ofereceu cerveja pra ela na balada, os caminhos tomaram rumos diferentes.
quarta-feira, 21 de maio de 2014
Deformação
Ela acordou assustada, era madrugada de uma sexta-feira 13 qualquer e ela tinha horror de sextas-feira 13. Notou, ao se mexer, que um homem dormindo ao seu lado. Não fazia ideia de quem fosse. Pensou em gritar, mas ele parecia familiar, ou talvez fosse um pesadelo. Olhou para o quarto e não se lembrava dele, tampouco dos móveis. Os móveis estavam dispostos de forma que o dono do quarto parecia uma pessoa muito asseada, o que ela não era. Não sabia o que fazia ali. Pensou em seu próprio nome, mas não sabia qual era, tampouco qualquer coisa sobre sua história. Tentou dormir novamente, mas não conseguia lidar com o fato de que representava tão pouco para si mesma que sequer se reconhecia. A realidade a esmagava. Não era ninguém. A sua vida era vazia. Deformada, saiu para comprar cigarros, embora não tivesse qualquer ideia se fumava ou não, e não voltou.
terça-feira, 20 de maio de 2014
Não é você
Não é você, é o cheiro de pitanga amarga que você tem quando passa perto de mim. Não é você, é aquele olhar que me engole quando passa. Não é você, é aquela barba que sobra quando você me diz um simples "oi". Não é você, é a sua mão que pesa mais que meu mundo inteiro. Não é você, é o timbre da sua voz rouca que come meus pedaços. Não é você, é seu abraço que me acolhe como criança. Não é amor, não, é você.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Entre o desejo e o desprezo
O seu cheiro na academia, suado, sarado, homem, me comia pelas entranhas. Algo em você era tão especial quanto a cerveja gelada no bar as sextas-feiras. Você era um meu tão meu que eu até tinha medo. Você era. Era você. Você era a ligação que eu não retornava as segundas (e não atendia aos domingos). Você era o meu cheiro de suor misturado com hidratante tanto amado. Você era o meu desejo ao pisar na academia e o meu desprezo ao sair. Você era você, deliciosamente, ao te amar suado e você era eu ao te desprezar no dia seguinte. Você não era você. Você era eu.
sábado, 17 de maio de 2014
Dormência
Ela dormia. A noite invadia seu quarto pela janela entreaberta, e a luz da lua criava um clarão na parede. O vento suave e constante fazia a cortina de seda balançar, dançando lentamente sobre a mesa. Ela dormia, enquanto a noite virava dia. O céu escuro clareava, e ela dormia. Um azul-cobalto floreava a vista, e ninguém via. Ela dormia, e perdia o despertar do sol. O céu tornou-se azul-marinho, azul-celeste, azul-bebe... e ela dormia. Ela dormia. Enquanto a chuva caia, ela dormia.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Mudanças
Ele desistiu. Olhou para trás. Coçou a cabeça. Fitou o horizonte que se esquecia, e desistiu. Desistir tinha um gosto horrível, algo que lhe lembrava ovo podre. De qualquer forma, ele preferia, naquele momento, o ovo podre, e o gosto horrível que ele tinha a qualquer outra coisa. Sentia que desistir era a pior escolha possível, mas que era o que tinha que ser feito. Pra ele, se algo deveria ser feito, nada poderia mudar isso.
terça-feira, 13 de maio de 2014
Ambição
Sentou-se desolado no sofá da sala. Caia uma chuva fina. A janela, que estava entreaberta, deixava transpassar uma brisa fria e aconchegante. Ele recostou a cabeça entre as mãos, sem perceber. Parecia refletir sobre a vida, ou talvez sobre sua própria existência. Não tinha certeza. Poderia estar pensando sobre qualquer coisa naquele momento que continuaria fazendo pouco sentido. Conquanto sua vida estivesse estável, ele já não qualquer ambição.
domingo, 11 de maio de 2014
Ode to family
Começaram uma sociedade há mais de 18 anos. Como toda sociedade, os problemas financeiros vieram no outono de ano seguinte. Deles decorreram discussões com os contadores. Os contadores contavam tantas coisas que nem sempre era possível acreditar que fossem verdade. Quando a primavera chegava os problemas se auto-resolviam. A empresa se mantinha. Só não resistiu à depressão de 1989, causada pela quebra de lealdade.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
Des=temido
Temia morrer. Temia não ser lembrado. A comunicação global era tão avançada que ninguém parecia se lembrar de muita coisa. Era difícil lidar com tanta informação. O que significava morrer num mundo de esquecimento instantâneo? Ninguém respondia essa pergunta. Ele não seria o primeiro a questionar esses temores da sociedade.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Traição
Andava olhando a lua. Uma distraída que só, uma apaixonada. A lua era só aquele sorriso lindo de amor e ela sorria de volta. E ela, apaixonada pela lua, nem notava que o que tinha ali não era paixão, nem amor, era uma obsessão doentia. Um dia olhou pro céu e não viu a lua. Achou que não a amava mais e a traiu com o sol da manhã.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Elephant Woman
Morava na rua, mas era limpinha. Entretanto, ninguém gostava de olhar para ela. Parecia repugnante. Portadora de uma doença contagiosa. Parecia coberta de lixo e com cheiro de esgoto. As pessoas a olhavam com reprovação. Ela conseguia distinguir dó de nojo no modo deixam as moedas cair no chão. As moedas caiam como que sendo um pedido a Deus. Pediam para nunca serem acometidos por aquilo. Eles tinham medo dela, embora parecesse completamente inofensiva. Se eles soubessem que o que a acometia era falta de coragem para encarar a vida, talvez a ajudassem.
terça-feira, 6 de maio de 2014
Longe
O amor que tinha estava longe. Longe demais para as mãos quentes. Longe demais para o beijo molhado. Longe demais para o desejo quente como o meio dia. Longe demais para o sussurro sacana no ouvido. Longe demais para o selinho de bom dia na testa. Longe demais pro café da manhã depois de uma noite de sexo. Longe demais para quase tudo. Mas o que era importante não conhecia distância: amor não mede quilômetros.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Spider
Lá no alto estava ela. Quem olhava debaixo tinha a impressão que estava suspensa no ar, mas eram cabos. Ninguém sabia o que ela fazia lá, parecia natural a ela fica lá. Ninguém quis perguntar. Alguns olhavam, mas sem dar muita atenção. Assim ela viveu. Suspensa e intocável. Solitária e incompreensível.
sábado, 3 de maio de 2014
Pete Murray
Talvez fosse alguma equação insignificante que agisse dentro da mente. Talvez apenas lembranças que voltam com o cheiro das coisas. O fato era que apenas lembrar ou ouvir uma música do Pete Murray o transportava, e lá ele podia tudo. A brisa do mar, o descompromisso com a realidade e a liberdade. Era aquela realidade que o revigorava.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Justiça
Estava estirada no chão quente. A pele estava alva, o corpo sujo de poeira e lama. Os olhos abertos e sem brilho. A multidão se aglomerava em torno daquele monte de carne, num ritual combinado de lamentação e justiça. Ninguém sabia o nome da defunta. Havia hematomas por todo o corpo. O linchamento ainda acelerava o coração dos linchadores. A sensação de insegurança acometia a multidão que, completamente iludida, acreditava que era justiça.
Assinar:
Comentários (Atom)