quarta-feira, 24 de junho de 2015

Entregas

E naqueles dias cinzas, amava com o coração cheio. Cheio de cinza, cheio de amor, cheio de não estar sozinho como o velho guarda-chuva que alguém esqueceu por não ter mais medo da chuva.
Apreciava cada pingo de chuva como se fosse calda de caramelo ou algum outro doce igualmente saboroso. Era livre enquanto andava pela chuva, era livre enquanto a olhava pela vidraça e prometia todo o seu coração molhado.
Não tinha mais medo nem da vida, nem da morte, entregou-se: a chuva, ao cinza, ao amor, a ela...

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Réquiem

Deitara-se. Os restos plantavam-se na solidão. A colisão de sensações cantarolavam. A sombra recheava o chão de frio. O réquiem condenava as almas à dançarem à luz da tristeza. Sem vigor as trevas fizeram pista, e o choro tornou-se o hino.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Futilidade

Tornava-se, a cada novo dia, mais fútil. No começo não se dava conta. As coisas eram tão naturais que passavam sem serem sentidas. A natureza morria ao redor, e ele não percebia. Deixava-se levar pela futilidade, porém a sensação de morbidez começava a devassá-lo. As vezes sentia a falta de sentido das coisas, sem se dar conta da causa. Os efeitos começavam a aparecer. A consciência começava a cobrar a dívida de uma vida solitária e pobre. O espírito morria, e ele também. Até que pereceu espiritualmente, e vagou sem consciência pela terra em plena ignorância!

sábado, 16 de maio de 2015

Enoitecido

Refúgio escuridão. À noite a realeza conhece a si mesma. Em si, enoitecido, os voos são rasos, e tudo o que há é mais que o que será. Os homens são projetos. Naturais. Imperfeitos. À noite o mar ecoa as trevas perpétuas. À noite ninguém é mais que si mesmo! Enoitecido o fruto é criador... e o tempo faz do homem perdedor. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Noite

Era madrugada. Andava aparentemente sem destino pelas ruas lúgubres da cidade. As vias eram escuras e sujas, repletas de restos humanos (vivos ou mortos). Suas mãos estavam sujas, eles estava sujo. Ninguém notava, inclusive ele mesmo. Ele continuava andando, e não dava atenção ao trânsito desordenado. Um homem sentado disse ao vê-lo passar: - "Aquele parece buscar a morte!". Talvez fosse isso, mas a morte - desatenta - não fez questão.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Ilusão

Convivia com tantos problemas que - com o passar dos anos - tornou-se uma pessoa indiferente. Tinha consciência de todos os problemas que enfrentava, mas não os enfrentava. Resmungava, a ponto de se tornar insuportável até para si mesmo. Quando a vida tornou-se absolutamente intragável ele parou de viver, imaginando ser essa a solução. Era ilusão!

Eclipse

Sentara num boteco. Resolvera que ficaria ali até o outro dia, bebendo e esperando o dia amanhecer. O dia não amanhecia, e ele se escureceu completamente.