domingo, 13 de dezembro de 2020

Perdido

Abriu a porta da sua casa e saiu sem se dar conta dos detalhes estranhos e fantásticos que pareciam ocorrer. Andou rápido e ao piscar se viu sentado em cadeira executiva numa sala com muita iluminação. Estava diante de um computador que estava aberto no site do jornal de grande circulação da cidade. Levantou-se e andou com ainda  mais pressa procurando a saída e ao ver a porta... piscou. A próxima imagem reproduzida por seus olhos eram de carros passando a toda velocidade. Viu-se sentado num banco de um ponto de ônibus em algum lugar central da cidade. Como não fazia ideia de para onde estava indo resolveu não sair do lugar. Estava inquieto e profundamente perturbado. O vazio que aquela sensação lhe trazia era devastadora. Quis pensar em formas de não se permitir piscar. Pensou em fechar os olhos e não mais abri-los, mas com o pensamento veio o medo de que pudesse ser conduzido para qualquer lugar que não fazia a menor ideia ou ficar vagando entre vários espaços simultaneamente ou ficar preso entre dimensões de sua mente. Não sabia ao certo, mas não queria piscar. Enquanto se esforçava para não piscar, piscou e surgiu diante de si um lugar parecido com um banheiro - era um banheiro. Ele tentou se recordar do local, em vão. Não fazia ideia do que estava acontecendo e só queria voltar a ter controle sobre sua vida. Fechou os olhos, numa tentativa de se reorganizar, e ficou assim por período metafisicamente inexpressivo. Quando abriu os olhos continuava perdido, mas aquele lapso de escuridão lhe mostrou o que tinha que fazer.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Eu sou

Eu sou o sol,
a água que corre
o ar que alaga,
a lua que apaga.

Eu sou o mar,
a terra sem chão,
a céu da idade,
o tempo-cidade.

Eu sou a luz,
o fio de rumo
a estrela pendente
a vida cadente!

A eternidade ausente,
O fim do nada,
o nada em mi,
E tudo em si!

Eu sou o que há
e não há nada,
além de mim,
que não seja você!

sábado, 8 de agosto de 2020

Exausto

Teto tem sentimentos? A cor parece desbotar como quando a terra era um deserto de vida! O que é vida?! Nada faz sentido. Esse teto. Como ele se sente sendo útil, sabendo sua utilidade para a existência de outras “coisas”. O peixe deve saber. Aquela vez ele sorriu pra mim, eu sei que sim. Senti o cheiro mesmo mergulhando em suas lágrimas. Será que we somos inteligentes a ponto de compreender o sentimento das coisas? A corda bamba pode não gostar da sua utilidade. O teto! Aquela aranha no canto tocando sua vida. Uma existência ativa e pacífica. Deveria perguntar sobre o Deus dela. Deve estar cansada dessas coisas sem sentido. Que sentido?! O teto é uma realidade. Estou deitado?! Quero estar. O rio que passa na cidade tem cheiro de vidas passadas e ninguém se pergunta o que isso quer dizer. Alguém pode estar vivo e pouco se importando com todo esse rolo. O que o monge faz? O teto continua sem responder. Eu deveria gritar, talvez ele seja surdo! Se eu tocar. Beethoven deveria entender o som do mar, a coisa toda dos sons intransmissíveis. O som do peso da vida. O teto tem olho? Olho que vê? Olho que cheira? Olho que ouve? A cor parece desbotada e sem existência. Desbotado! Quem inventou isso (des-bo-tar. Eu desboto!? Minhas botas são parte da poeira que elas carregam e há uma circunstância extrema entre fingir ser bota e poeira? Confuso! O teto me dá sono!

terça-feira, 14 de julho de 2020

Esquecimento

Muitas vezes só queremos esquecer, mesmo que isso nos condene a lembrar. A eternidade é um calmante para quem perdeu a vontade de viver literalmente. Eu deveria ter escrito, tatuado talvez. As coisas nunca saem como a gente espera, mas a tragédia faz lembrar o que se esqueceu... e faz esquecer todo o resto. O que eu esqueci quando passei a olhar para trás ou para frente? Não faz diferença. O passado, o presente e o futuro são memórias despedaçadas para quem não existe. A existência deixou de fazer sentido, o tempo e o espaço são temeridades. Eu nasci? Eu morri? Já não sei. Há tempos ninguém pode responder essa pergunta. A existência é um plano? Sou agora o que a existência não explica. Os deuses me lembraram? Não acho que haja um (...).

- o quê? (uma vez pergunta).

Fico em silêncio.

Novo dia

Deveria acordar sujo do sonho dantesco. Suado e fétido, sem perdão pela maestria com que eu me vinguei da minha própria insipiência e antipatia. Deveria acordar estarrecido, como quem procura o sol no quarto escuro e puído. Deveria acordar a ilusão do bom dia que não existe, do tédio que persiste e me encaminha para a retidão, para o fingimento. Deveria acordar verdadeiro, sem medo do que vão pensar sobre o que jamais saberão. Deveria acordar, e não decidir nada antes do último arrebol. O sol nasceu e eu acordei mais uma vez na utilidade das coisas que fazem sentido para quem quer que elas façam algum sentido.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Escuridão

Era tudo escuro. Tão escuro e de tal modo escuro que ele sequer podia ver a si mesmo. A escuridão contaminava cada célula de seu corpo e cada pensamento de sua mente. Ele não queria pensar naquilo, mas era inevitável. Viver a escuridão era inevitável, uma vez nela.

Havia algo estranho. 
Havia alguma coisa 
que soava diferente naquela escuridão.
E era só isso, escuridão até o fim dos dias.
A escuridão não precisa de explicações,
pois era o que era sem nada além ou aquém.