quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Poesia

Perguntaram um dia ao velho poeta, afinal, o que era a poesia? Ele suspirou profundamente e procurou palavras no vento:
- Poesia, meu caro, a gente não define, a gente não mede, nem devia ter no dicionário... poesia a gente sente e só.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Ciúmes

Acordou, mas não abriu os olhos. O corpo pesava mais que uma tonelada, os olhos pareciam colados, a consciência lhe devorava a alma e as entranhas. Lembranças vorazes da noite anterior voltavam a sua mente com uma rapidez que lhe nauseava, ainda podia sentir o cheiro do sangue fresco jorrando, a sensação de poder e coragem absoluta que sentiu na primeira punhalada que desferiu, ainda ouvia o grito seco de dor dela, ainda lembrava-se de como ficou linda, pálida e pintada de vermelho no chão. A imagem de Maria fria no chão lhe causava sensações extremas: ódio por matar seu amor e alívio por saber que ela seria para sempre apenas dele.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Velhice

Era pra ser só um dia a mais,
um dia normal, um dia qualquer,
com tédio, rotina e paz,
mas é dia que não tem colher.

Parece inclusive que sou rei,
Que todo mundo me quer bem;
Talvez seja por quê vinguei,
ou por que não estou no além.

Afinal, não entendo bem o ritual,
hoje sou astro e sou estrela,
amanhã sou ninguém, coisa e tal.

Ninguém me lembra, e nem me vela.
Pra mim é um, só mais um, clichê,
tal qual os abraços e parabéns pra você.

De aniversário!

Tem vezes (e gentes) que é difícil de parabenizar
Porque só palavras parecem ser pouco demais...
E é por isso que o parabéns vai em poema.
Poemas são completos e expressam melhor.

Em um mini poema de parabéns cabem
Todas as coisas bonitas do mundo:
tem arco-íris, tem cheiro de livro,
tem sonhos, tem orvalho da manhã.

Vai também bolo e guaraná e brigadeiro
pra não esquecer de ser criança nunca.
Vai ainda um abraço-verso e
Um parabéns sem rima (pra não ser clichê).

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A fuga

Os joelhos já doíam imensamente quando teve coragem de parar e olhar para trás. Ofegante e suado, havia corrido por horas por caminhos que mal teve tempo de ver. Sangrava das pedras que lhe derrubaram, tremia de um medo tão puro, tinha os olhos parados e secos. Chegara a algum lugar desconhecido e olhava em volta para ter certeza de que o agente causador de tamanho pânico não estava mais lhe seguindo. Foi quando, em um suspiro profundo de dor, deu-se conta de que nunca estaria liberto dessa perseguição e, em prantos, admitiu que não podia mais fugir de si mesmo.
Nasceu num dia cinza. Talvez por esse motivo a única pessoa que compareceu ao seu nascimento foi sua própria mãe e um médico mal humorado e com pressa. Naquele dia, contam, choveu que parecia que o mundo inteiro viraria um imenso oceano. Não virou, mas tanta água dos céus criou naquela criança um amor pela solidão e pela chuva. Cresceu ouvindo que era estranha e até concordava por falta de opção melhor para lidar com as pessoas. E nos dias cinzas, sozinha no quarto, viajava para mundos distantes na imaginação e era lá que verdadeiramente habitava.