Chovia forte. Os vidros embaçados e a chuva torrencial não permitiram que ele tivesse uma visão perfeita da pista. O fato de estar dentro do limite de velocidade não ajudaria a evitar o acidente que ocorreria segundos após isto ser escrito. De alguma forma ele teve acesso a esta mensagem. Evitou o acidente e continuou a dirigir, agora ciente de tudo que poderia acontecer e não acontecer. Tinha a sensação de ter o controle total das coisas, mas alguma coisa soava estranho.
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
Penumbra
Estava escuro. Tão escuro que ele podia ver tudo. Podia ver coisas que jamais poderia ver com os olhos abertos. As sensações eram maiores e mais intensas. Podia ver tão bem que, às vezes, o ver transformava-se em sentir. O ver verdadeiro fazia seu coração bater mais forte. Queria ver tudo o que sempre negligenciara, especialmente o infinito interior. Passou muito tempo na escuridão. Absorveu-a para além de seus olhos. Encheu-se dela, e um dia, frio talvez, sentiu falta das sombras!
sexta-feira, 2 de junho de 2017
O cineasta
Eu costumava viajar em ideias abstratas. Costumava ver o céu noturno com olhos de Gogh. Eu costumava pensar sobre as propriedades terapêuticas de tudo que eu não fazia. A simplicidade de tudo que me fazia falta. O universo imergido nas nuances, as crostas de ilusões e predileções imperfeitas. Eu costumava ser mais que um filme. Hoje sou apenas mais um cineasta frustrado que assiste sua própria história não ser contada a ninguém em uma tela em preto e branco e filme 35mm.
domingo, 14 de maio de 2017
Céu
O céu é um infinitivo. Profundo é eloquente. O céu foi, certa vez, menor que minha vontade de combiná-lo com universo, e ainda assim era maior que tudo que eu já havia esquecido de conceber. Eu nunca soube lidar com o infinitivo, era escuro demais e denso. O céu é um oceano, só que cheio de lembranças não concretizadas.
sábado, 22 de abril de 2017
Construção
Durante toda sua vida dedicou-se a construir. Construía casas, prédios, praças, estradas, lojas... construía tudo, mas vivia se queixando das inacabações emocionais e afetivas!
segunda-feira, 3 de abril de 2017
Medo
Ele tinha tanto medo, que suava frio caso alguma mudança brusca ocorresse. O medo era geral. Tinha medo do céu, do Sol, da terra, do som da chuva, da própria chuva, tinha medo até de si mesmo. Se isolava para fugir do medo que sentia de lidar com tudo. Um dia acordou sem medo, achou que estivesse morto. E estava, de alguma forma.
Solidão
A solidão, dizia, era uma necessidade. Afastar-se de tudo para poder sentir melhor a realidade a sua volta era um bem maior que qualquer outro. Queria entender como tudo influenciava sua vida, e o que deveria mudar para retomar o controle. O que ele não sabia era que a falta de controle é que dava a sensação de que poderia voar. A essa altura ele já estava cravado na terra infértil das desconstruções!
quarta-feira, 22 de março de 2017
Nirvana
Estava disperso. Olhava o horizonte buscando se afastar de tudo que o cercava. Queria entender o nirvana, e, para ele, esse era o caminho. Quando o silêncio começou a persistir dentro de si, os acordes de "smells like team spirit" o fez levantar e seguir o barulho!
sábado, 4 de fevereiro de 2017
Cantinho
Há sempre um cantinho que é seu. Aquele em que você esconde-se de tudo é autêntico. Há sempre um cantinho onde a vida e a morte são apenas retratos desfocados. Longe dali você pode ser qualquer coisa!
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
Contadores
Era um dia de sol. A lagoa da cidade estava cheia de pessoas felizes e atléticas. Elas praticam seus exercícios e falavam do dia belíssimo que se espreitavam por entre as árvores. O sol refletia a beleza dos pássaros. Todos sorriam, exceto os contadores que contabilizam a beleza em números imaginários.
sábado, 28 de janeiro de 2017
Atrasado
Quando de frente com a juventude enfrenta o pior de si. A resistência ao tempo e à morte assume forma especial. Vive como que além do tempo, e ao mesmo tempo é saudoso (qualidade de quem é ultrapassado). A juventude lhe causa dor, e ao se separar dela rejeita a si mesmo. Embriaga-se de noites abundantes e viaja para além do dia. Assim sobrevive, mas não sem cicatrizes.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Alívio
Adormeceu enquanto contemplava o arrebol. Estava bem, e sentia que tinha cumprido seus planos. Não tinha mais necessidade de nada. Dormir ali representava, talvez, uma tentativa de se renovar. Mudar o foco. Quando o acordaram, pouco tempo depois, ele chegou a pensar em se levantar, mas, com um sorriso no rosto, esperou deitado a maré subir.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Felicidade
Ria solitário sentado na calçada da sua casa. Os transeuntes o olhavam com uma curiosidade felina. Pareciam querem penetrar aquele riso para entender de onde vinha aquela felicidade genuína que ele apresentava.
Ele ria, e ria. Depois de um tempo pessoas pararam para ver. Criaram um circulo envolta do homem feliz. Cochichavam uns com os outros enquanto olhavam com atenção à cena. Alguns até riam junto e seguiam a vida. Outros mantinham-se sérios e ranzinzas, tentando entender o motivo de tanto riso.
Após algum tempo o homem teve seu tom de pele modificado para um vermelho. O tempo passava e a vermelhidão em seu rosto era mais e mais evidente. Entretanto o riso não cessou. Ele ria, como que numa felicidade intransponível. Permaneceu assim por horas. As vezes, parecia lhe faltar um pouco de ar, mas nem isso o fizera cessar.
O número de pessoas aumentava enquanto as risadas pareciam cada vez mais uma expressão autêntica de felicidade. As pessoas paravam, olhavam, questionavam os demais e tentavam entender o motivo de tamanha felicidade. Alguns pareciam se incomodar demasiadamente com aquele ato. Diziam: - É um desrespeito. Uns concordavam, outros não.
Quando o homem pareceu passar mal, a maior parte das pessoas ficou olhando. Enquanto o homem morria de felicidade era possível notar alguns sorrisos na plateia. A ambulância chegou, e ainda era possível ver um sorriso em silêncio.
Enquanto os paramédicos reanimavam o homem, parte do público saia feliz com o desfecho.
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