quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Estrelas

Havia na noite estrelada algo que sempre o fazia chorar. Deitado na grama, escondido no fundo do quintal, com os grandes olhos cheios de lágrimas que escorriam e juntavam-se ao orvalho da noite, chorava como criança indefesa.
Não sabia ao certo o motivo do choro; talvez fosse porque as estrelas lembravam o açúcar sobre os sonhos de doce de leite que ela fazia para comemorar o aniversário de namoro, talvez porque elas lembravam as sardas do rosto dela, talvez porque em cada constelação só o rosto dela havia.
Mas de algo tinha plena certeza: ela foi, o amor e as estrelas ficaram.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Ponto

Era um ponto preto no piso.
Branco. Piso. Preto. Ponto.
Quanta complexidade nisso!
Ninguém vê o ponto. Tonto.
Quem mais teria tempo?
O tempo que ninguém tem,
é cultivado no piso de ninguém.
E o ponto preto? Passatempo.
Uma formiga que ninguém viu,
e que passou como o céu primaveril.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Gran finale

Planejou um suicídio para chamar a atenção. Era uma ideia nada convencional, mas no mundo atual ele achou que valia a pena. Pra ele o mundo se media pelo número de curtidas que recebia. Ele tinha muitas curtidas, mas as ideias estavam acabando. Já tinha nadado com tubarões e pulado de carro em movimento. Tinha feito tatuagem de desenhos indicados por votação e bebido óleo de motor. O suicídio foi planejado meticulosamente. Ele pularia de uma árvore, cujo galho já estava parcialmente cerrado. Ele pôs reforço ligado aos quadris na corda de forma que não quebraria o pescoço com a queda. Tudo certo. Era o  gran finale, e foi um sucesso. Infelizmente ele não sobreviveu pra ver.