segunda-feira, 31 de março de 2014

Casamento

Maria sonhava se casar. Quando criança só brincava de casinha, vivia com flor de laranjeira pregada no cabelo, adorava roupas brancas e chorava em todas as cerimônias de casamento que ia. Os anos passaram, Maria apaixonou-se por vários "amores da sua vida para sempre" e todos eles fugiram. Eis que Maria, na segunda semana de relacionamento, virava para todos na cama depois do sexo, dizendo: "Então, você acha que no mês que vem já podemos nos casar?".

domingo, 30 de março de 2014

Blackout

Desde criança tinha um medo absurdo do escuro. Já lhe haviam contado que no escuro tudo era igual ao claro, era só memorizar onde tudo estava e lá elas continuariam com as luzes apagadas. Entretanto, mesmo adulta, permanecia com aquele medo gigante do escuro. Um dia, caminhando por uma rua muito bem iluminada, eis que um de seus maiores medos acontece: um blackout total, toda a cidade de um instante para outro fica no total escuro. Alguém lhe toca o ombro, ela tenta gritar, mas o medo a paralisa. Uma mão na sua, um beijo, um amor instantâneo e o medo de escuro que foi embora para todo o sempre.

sábado, 29 de março de 2014

Perseguição

Vivia a vida sem dinheiro, sem esperança, sem nada. Tentava e tentava subir na vida, agarrar-se aquelas oportunidades que um dia mentiram pra ele que existiam na cidade grande quando, tão pobre quanto era agora, saiu fugido do sertão, da seca e da pobreza. O que não haviam contado pra ele é que a pobreza era rápida e perseguiu-o até a cidade grande, embarcada escondida na pequena mala.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Delírio de uma manhã sem sábado

Sonhou que estava caindo. No começo gritou e tentou encontrar as paredes do buraco. Passados dez minutos o grito ficou menos intenso. Depois tentou ver o fundo do buraco. Passadas horas estava tranquila. Fazia tranças no cabelo, e nem roía mais as unhas. Depois brincou de natação na queda. Entediada dormiu no sonho, e sonhou que estava dormindo e que o sonho era sobre cair. Quando já se acostumava ao sonho, acordou. Estava caída no chão do banheiro, abraçada a uma garrafa de vinho barato!

quinta-feira, 27 de março de 2014

Normalidade

A vida tinha perdido o sentido. Já não fazia muita coisa além da rotina. Trabalho, casa, igreja, namoro. Acordou, num sábado qualquer, sentindo-se um robô. Quis continuar deitada, fazer algo anormal. Não tardou até pegar o óleo e aplicar nas juntas.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Notícia moderna (3)

Astronauta esquece de comprar a passagem de volta e fica preso em marte. Em contato telefônico, o astronauta explicou que deixou para fazer o check-in de última hora, e acabou esquecendo de pegar a passagem de volta. Explicou que pretende voltar, mas vai esperar a baixa estação e que durante a estadia em marte vai plantar bananeira.

terça-feira, 25 de março de 2014

Chuva

Uma chuva fina caia lá fora, ela, de seu universo particular, observava com desdém os pingos tocarem a janela. Gostaria de ter um pouco mais de coragem de ir tocar os pingos de chuva com as próprias mãos, precisava lavar-se na chuva das sujeiras que sua mente construiu quando o coração desistiu de amar. Afogava-se em desamor, precisava ir afogar-se na limpidez da chuva.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Notícia moderna (2)

Modelo caiu. E, ao que tudo indica, não levantará durante algum tempo. Os especialistas dizem que isso é normal na carreira, todavia parece que era só descostura.

domingo, 23 de março de 2014

Notícia moderna (1)

Cachorro quente é encontrado caído no chão da praça central. Segundo os veterinários que atenderam ao chamado, ele corre risco de vida, pois o dia é de chuva.

sábado, 22 de março de 2014

Um dia de sorte.

Olhava pela janela do quadragésimo andar do World Trade Center. Sentia-se no topo do mundo. Uma sensação de completude lhe encheu o peito. Queria viver aquilo pra sempre. Antes de sair do prédio soube que havia conseguido o emprego almejado. Sentia que feliz e realizado. Combinou de voltar no outro dia. Por sorte ou não, enquanto saia ouviu o primeiro avião colidir com o edifício. Queria chorar ou rir, mas ficou sentada no chão inerte olhando o prédio cair!

sexta-feira, 21 de março de 2014

Liberdade

Amava a liberdade, fazia de tudo para ser livre: amar livre, viver livre. Mas um dia, alguém entrou na sua vida e comeu toda a sua liberdade. Tinha dentes afiados e um cheiro tão bom; deixava marcas pelas coxas e pelo quarto. Apegou-se em viver a liberdade dele, mesmo sabendo que aquilo consumiria a sua. Entregou-se e escolheu não ser livre, depois arrependeria-se amargamente disso (ou não).

quinta-feira, 20 de março de 2014

Amor em pessoa

Era um amor de pessoa. Quem o conhecia o achava gentil, extremamente gentil. Gostava de agradar. Porém, excedia. Excedia no agrado. Levava flores toda semana à sua esposa. Aos domingos servia café da manhã na cama. Fazia declarações públicas e íntimas de amor. A esposa não suportou. Na madrugada de domingo ela sumiu. Ao meio dia ele já servia a nova esposa.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Sorte e azar

Era um azarado nato. Vivia a vida perdendo por todos os cantos e todos os jogos. As pessoas, procurando animá-lo e acreditando também naquilo lhe repetiam sem parar: "Não se desespere, amigo! Pois já é sabido, quem tem azar no jogo, tem sorte proporcional no amor." Viveu a vida acreditando que teria um amor desses bonitos e longos. Mas o tempo passava e esse amor nunca chegava, tranquilizava-se pensando que talvez nunca fosse ter vários amores, mas sim um definitivo e que esse ainda se demorava, mas chegaria. Na velhice, solitário como sempre foi, sem amor, com sorte apenas em ter azar, foi que ele descobriu pesadamente que o amor é um jogo.

terça-feira, 18 de março de 2014

O perfeito

A vida estava muito perfeita. A cidade em que ele morava não tinha violência. Não se ouvia falar em doenças. As pessoas eram educadas, e dividiam as riquezas entre si, de forma que ninguém fosse pobre ou rico. O único problema residia na arte, na música e na literatura. Eram perfeitas demais. Não tratavam sequer de ficção. Quando um homem se arriscou a escrever um poema sujo, foi expulso da cidade. O poema fora banido. Contam, contudo, que após esse dia existe tráfico de poema sujo, e que o poeta começou a traficar música, literatura e poesia. Na cidade, as mascaras continuam firmes.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Esperas

Ele estava cansado de tanto esperar: esperar o café sair, esperar o ônibus, esperar o aumento, esperar o almoço ficar pronto, esperar a chuva parar, esperar a felicidade bater, esperar seu time ser campeão do campeonato nacional. Tanto resmungava esperando que não notou que, enquanto esperava, a vida passava por suas mãos e acabou vivendo esperando a morte chegar.

domingo, 16 de março de 2014

Ponto

Sempre às 18 horas, quando o dia já estava por se esconder, ele aparecia e se sentava no ponto de ônibus. Não falava com ninguém. Apenas esperava. Já se passavam mais de dois anos que essa rotina se refazia diariamente. Um dia ele não apareceu. Disseram que ele tinha morrido. Disseram que ele fora internado. A verdade é que ele nunca estivera lá.

sábado, 15 de março de 2014

Sorrisos

Procurou um sorriso em cada esquina. Muitos lhe sorriram, mas ela, preocupada com um específico nem notou, nem sorriu de volta. Andava triste pelas ruas, nem as estrelas, nem o sol da manhã lhe faziam sorrir. Ele havia ido embora, levado consigo seu sorriso e o dela que dependia dele. Ela, mesmo contra a vontade, haveria de reaprender a sorrir sem ele, porque o sorriso dele já tinha nova morada.

sexta-feira, 14 de março de 2014

A curiosidade

Ela recebeu uma carta. Um envelope aparentemente normal. O envelope era branco, estava selado e aparentemente não continha violação. A única anormalidade era a ausência de identificação do remetente. Ela abriu o envelope e retirou a carta, embora tivesse medo de algum mal lhe ocorrer. Na carta havia os seguintes dizeres: "Encontre-me hoje às 19 horas na praça central. Use um vestido vermelho, salto branco e arco no cabelo". Não sabia o que fazer. Ir a um encontro às escuras parecia loucura, mas estava curiosa. Foi apenas de vestido vermelho. Ao chegar à praça ficou longe. Olhou o movimento. Tomou coragem, dirigiu-se à praça e sentou-se. Esperou. Esperou. Esperou. Às 19 horas estava assustadíssima. Tremia. Fechou os olhos esperando o pior. Nada aconteceu. As horas passaram. Quando deu 21 horas ela resolveu ir embora. Alguém gritou, ao olhar foi atropelada. Antes de morrer amaldiçoou os acessórios que deixou de usar. 

quinta-feira, 13 de março de 2014

Progresso

Olhava para o relógio a cada minuto. Sabia que estava atrasado, mas para quê? Ele não fazia ideia do que deveria fazer e não estava fazendo. Tentou dormir, sem sucesso. Levantou várias vezes durante a noite. Assistiu televisão. Tomou banho morno. Nada o fazia lembrar. O relógio continuava a incomodá-lo. O tempo passava e ele não tinha ideia do que havia esquecido. Quando o relógio marcou cinco horas da manhã ele apagou de cansaço. Dormiu durante dois dias seguidos. Ao acordar a primeira coisa que fez foi jogar o relógio no lixo do banheiro.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Dia 04

Refazia as malas. O aeroporto o esperava. Ele esperava mais de si mesmo. Sempre esperou. Achava que as pessoas sempre esperavam que ele fosse mais do que era. Que se superasse. As expectativas, naquele dia, foram tomando proporções anormais. Estava chegando ao aeroporto. As malas estavam feitas. Ele olhou para trás como se esquecesse algo. Viu o mar, o céu e o sol. Olhou para frente. Viu pessoas correndo. Os relógios fazendo barulho. Olhou para o mar, fechou os olhos. Pensou novamente que estava esquecendo algo, e esquecia: a liberdade.

terça-feira, 11 de março de 2014

Sonhos

Vivia reclamando com todos que nunca sonhava. Almejava infinitamente sonhar a noite inteira com terras desconhecidas, seres mágicos, experiências que não poderia viver na vida real. O que ela não sabia é que enquanto todos conseguiam sonhar só dormindo, ela conseguia sonhar acordada e eram esses os sonhos mais bonitos que qualquer pessoa poderia ter.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Dia 03

A noite caía. Tudo era tão profundo quanto o oceano que se espalhava negro pelos cantos da estrada. O sono presumia um dia longo. A noite era calma. A estrada era mansa. Só uma coisa faltava. Haviam esquecido de pendurar a lua no teto. A falta da lua deixou a noite carente, e chorosa. A estrada era mais escura, a vegetação mais silente, a noite mais profunda. Só o oceano continuava cantando, todavia parecia chorar (no fundo). 

domingo, 9 de março de 2014

Amanhecer

Era noite quando ele chegou. Não havia estrelas, nem lua, só uma escuridão impar e um frio congelante. Há tempos que era noite e parecia que nunca ia amanhecer novamente, mas ele veio e trouxe consigo um sol suave de primavera e o dia foi enchendo-se dentro de onde antes era noite.

sábado, 8 de março de 2014

Dia 02

Horas passavam rápido. O chão estalava. O sol queimava a pele branca, e o sorriso aumentava a medida que os cavalos nos levavam até onde os quilômetros eram mais azuis. O horizonte era mais terno, a brisa era mais doce, o céu era mais amoroso a medida que o carbono preto queimava no petróleo preto. O sorriso aumentava. O coração amansava. A vida aumentava. Todos paravam pra ver que a vida sossegando na maresia, e a vida não era mais vazia, era poesia. Só poesia.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Química

A  música minimalista enchia o pequeno comodo, os ouvidos e o coração. Ela aproveitava-se dos acordes leves para diluir com lágrimas o último-futuro-grande-amor que não foi. Parecia tão ele, parecia tão eterno, parecia tanto. Descobriu que eram grandes aparências, pequenas verdades e agora procurava um novo amor pra juntar o mel do novo, as lágrimas do velho e reequilibrar as concentrações químicas do coração.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Dia 01

Ele olhou para a selva de pedra. O barulho era intenso. Não se via muitas pessoas, senão dentro de carros. A natureza morta de metal se estendia por todo os cantos. Tinta e cores neutras. Era pra ser o paraíso, era pra ser a natureza viva. Era pra ser diferente, mas era só mais um dia de sol.

quarta-feira, 5 de março de 2014

As dores e a chuva

Lá fora chovia. Chovia eternamente. Chovia enquanto escurecia. Chovia enquanto amanhecia. A água tão límpida lavava todas as dores do mundo e insistia em cair porque as dores vinham sempre de todos os lados e de todas as pessoas. E se um dia o coração humano parece de sentir dor, será que a chuva deixaria de cair?

terça-feira, 4 de março de 2014

Recortes

Estava sentado. Olhava de longe o show. Sentia-se solitário. Não conhecia ninguém, e era tímido demais para conseguir uma amizade instantânea. Quando a banda começou tocar moonshine ele sentiu uma dor lancinante. Parecia saudade. Começou a chorar de dor. Num susto se viu no palco declarando-se para o seu novo amor de todo sempre.

segunda-feira, 3 de março de 2014

O passado sonhado

Sentada numa pedra no quintal, sentia o sol nos cabelos e lembrava de épocas distintas da sua vida. Um turbilhão de lembranças antagonizavam aquela expressão facial tão serena que tinha. Lembranças que faziam sorrir, lembranças que traziam alguma ponta de dor de longe, lembranças coloridas de rir, lembranças de amores quentes... As pessoas do mundo achavam que ela sonhava com futuros distantes e melhores, mas os sonhos dela eram de passados que não vinham.

domingo, 2 de março de 2014

Crime de carnaval

Um grito. Pessoas desesperadas correndo. A situação era sem precedentes. O pavor nos olhos das pessoas amedrontava. O carnaval continuava, a festa não parava. Ouvia-se choro. Via-se o desespero. Ninguém acreditava. Pessoas estavam sendo esmagadas pela multidão. A sirene tocava. Os policiais corriam para o palco. Era o maior crime já visto. Era música clássica sendo tocada em pleno carnaval.

sábado, 1 de março de 2014

A frieza

Na vida dela todo o amor sempre foi morno. Não que amasse pela metade, não que faltasse boa vontade. Talvez fossem os amores dela que fossem mornos demais, talvez fosse com eles o problema, deviam se entregar de menos, amar de menos. Essas eram as desculpas que ela dava, a verdade é que ela era fria e amornava todos os amores.