quinta-feira, 17 de maio de 2018

A crença

É difícil acreditar. As crenças nem sempre são o que parecem, e, muitas vezes, não querem ser. É preciso ir além. Ele sabia que precisava ir além. Deixar-se cair no abismo escuro para, quem sabe, encontrar no fundo do poço a água que lavaria todas as impurezas de sua existência. Não era fácil. Acreditar era negar o real. Negar o físico. Negar tudo, inclusive que não estava vivendo num sonho. No fim as dúvidas pairavam sobre ele querer ou não acreditar, e isso fazia toda a diferença.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O motorista

Chovia forte. Os vidros embaçados e a chuva torrencial não permitiram que ele tivesse uma visão perfeita da pista. O fato de estar dentro do limite de velocidade não ajudaria a evitar o acidente que ocorreria segundos após isto ser escrito. De alguma forma ele teve acesso a esta mensagem. Evitou o acidente e continuou a dirigir, agora ciente de tudo que poderia acontecer e não acontecer. Tinha a sensação de ter o controle total das coisas, mas alguma coisa soava estranho.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Penumbra

Estava escuro. Tão escuro que ele podia ver tudo. Podia ver coisas que jamais poderia ver com os olhos abertos. As sensações eram maiores e mais intensas. Podia ver tão bem que, às vezes, o ver transformava-se em sentir. O ver verdadeiro fazia seu coração bater mais forte. Queria ver tudo o que sempre negligenciara, especialmente o infinito interior. Passou muito tempo na escuridão. Absorveu-a para além de seus olhos. Encheu-se dela, e um dia, frio talvez, sentiu falta das sombras!

sexta-feira, 2 de junho de 2017

O cineasta

Eu costumava viajar em ideias abstratas. Costumava ver o céu noturno com olhos de Gogh. Eu costumava pensar sobre as propriedades terapêuticas de tudo que eu não fazia. A simplicidade de tudo que me fazia falta. O universo imergido nas nuances, as crostas de ilusões e predileções imperfeitas. Eu costumava ser mais que um filme. Hoje sou apenas mais um cineasta frustrado que assiste sua própria história não ser contada a ninguém em uma tela em preto e branco e filme 35mm.

domingo, 14 de maio de 2017

Céu

O céu é um infinitivo. Profundo é eloquente. O céu foi, certa vez, menor que minha vontade de combiná-lo com universo, e ainda assim era maior que tudo que eu já havia esquecido de conceber. Eu nunca soube lidar com o infinitivo, era escuro demais e denso. O céu é um oceano, só que cheio de lembranças não concretizadas.

sábado, 22 de abril de 2017

Construção

Durante toda sua vida dedicou-se a construir. Construía casas, prédios, praças, estradas, lojas... construía tudo, mas vivia se queixando das inacabações emocionais e afetivas!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Medo

Ele tinha tanto medo, que suava frio caso alguma mudança brusca ocorresse. O medo era geral. Tinha medo do céu, do Sol, da terra, do som da chuva, da própria chuva, tinha medo até de si mesmo. Se isolava para fugir do medo que sentia de lidar com tudo. Um dia acordou sem medo, achou que estivesse morto. E estava, de alguma forma.