sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Alívio

Adormeceu enquanto contemplava o arrebol. Estava bem, e sentia que tinha cumprido seus planos. Não tinha mais necessidade de nada. Dormir ali representava, talvez, uma tentativa de se renovar. Mudar o foco. Quando o acordaram, pouco tempo depois, ele chegou a pensar em se levantar, mas, com um sorriso no rosto, esperou deitado a maré subir.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Felicidade

Ria solitário sentado na calçada da sua casa. Os transeuntes o olhavam com uma curiosidade felina. Pareciam querem penetrar aquele riso para entender de onde vinha aquela felicidade genuína que ele apresentava.
Ele ria, e ria. Depois de um tempo pessoas pararam para ver. Criaram um circulo envolta do homem feliz. Cochichavam uns com os outros enquanto olhavam com atenção à cena. Alguns até riam junto e seguiam a vida. Outros mantinham-se sérios e ranzinzas, tentando entender o motivo de tanto riso.
Após algum tempo o homem teve seu tom de pele modificado para um vermelho. O tempo passava e a vermelhidão em seu rosto era mais e mais evidente. Entretanto o riso não cessou. Ele ria, como que numa felicidade intransponível. Permaneceu assim por horas. As vezes, parecia lhe faltar um pouco de ar, mas nem isso o fizera cessar.
O número de pessoas aumentava enquanto as risadas pareciam cada vez mais uma expressão autêntica de felicidade. As pessoas paravam, olhavam, questionavam os demais e tentavam entender o motivo de tamanha felicidade. Alguns pareciam se incomodar demasiadamente com aquele ato. Diziam: - É um desrespeito. Uns concordavam, outros não.
Quando o homem pareceu passar mal, a maior parte das pessoas ficou olhando. Enquanto o homem morria de felicidade era possível notar alguns sorrisos na plateia. A ambulância chegou, e ainda era possível ver um sorriso em silêncio.
Enquanto os paramédicos reanimavam o homem, parte do público saia feliz com o desfecho.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Ano novo

Quando soaram os primeiros fogos anunciando o ano novo, ele pediu silêncio e anunciou.

-Para que ninguém alegue desconhecimento, digo e afirmo... não há nada de ontem que o hoje tenha transformado. E mais - ele disse tentando olhar para cada pessoa - eu resisto, resisto e não me contento com o passar dos anos. Quando amanhã acordamos todos seremos ontem, ano passado e tudo o mais. Não reformarei nada, sou isso que o passado cicatrizou.

Continuava falando, mas a essa altura ninguém mais prestava atenção, de forma que ele resolveu rememorar sozinho as nostalgias de ser ele mesmo e não ter qualquer expectativa em relação ao fluxo de tempo que não admitia.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Viajante

-Afora era tudo complicado, mares verdejantes e céu de abobada celeste. Um teste de restrição. Acontecia a mim tudo, até o que me sobressaia!
-Quem restaurou sua imagem?
-Nunca houve imagem. Talvez reflexos do que eu pensara existir além-mar.
-E essa existência foi complicada?
-Não, a existência é o que é. Ninguém existe além ou aquém, só existe. Eu quis existir apenas em dias de chuva, ou nas tardes frívolas. Havia um quê de vida ali que ninguém via.
-E agora?
-Agora não há nada, só lembranças do que eu não me lembro mais.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

[In]decifráveis

Mal, e por que não?
Afinal nem tudo é
o que deve ser.
O ser é, apenas.
O é em si e sem mais.
É tudo o que traz,
além do que há.
Sempre haverá,
para que haja mais.
Só.
Até que não haja,
e o pó seja pó.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Stereo

Cisma-se na canção!
E pra que? Sem razão?
Outrora até veria ondas
Nas matizes insculpidas.
Viver-se-ia nas perdidas
Dualidades d'umas rondas
inconstante de solidão
Pra viver além do pão!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Reverberações

Deixa-nos intrigados
aquelas inquietações,
solilóquios, pretensões...
no âmago arraigados.
Tais como reverberações,
que reagem com o externo
para impor o inferno
em nuances de estações.
Reverberam intenções,
que parecem não ecoar...
e é tal qual o ato de fumar,
na qual, a força dos pulmões
não fazem com que a fumaça
abandone a carcaça.