terça-feira, 14 de julho de 2020

Esquecimento

Muitas vezes só queremos esquecer, mesmo que isso nos condene a lembrar. A eternidade é um calmante para quem perdeu a vontade de viver literalmente. Eu deveria ter escrito, tatuado talvez. As coisas nunca saem como a gente espera, mas a tragédia faz lembrar o que se esqueceu... e faz esquecer todo o resto. O que eu esqueci quando passei a olhar para trás ou para frente? Não faz diferença. O passado, o presente e o futuro são memórias despedaçadas para quem não existe. A existência deixou de fazer sentido, o tempo e o espaço são temeridades. Eu nasci? Eu morri? Já não sei. Há tempos ninguém pode responder essa pergunta. A existência é um plano? Sou agora o que a existência não explica. Os deuses me lembraram? Não acho que haja um (...).

- o quê? (uma vez pergunta).

Fico em silêncio.

Novo dia

Deveria acordar sujo do sonho dantesco. Suado e fétido, sem perdão pela maestria com que eu me vinguei da minha própria insipiência e antipatia. Deveria acordar estarrecido, como quem procura o sol no quarto escuro e puído. Deveria acordar a ilusão do bom dia que não existe, do tédio que persiste e me encaminha para a retidão, para o fingimento. Deveria acordar verdadeiro, sem medo do que vão pensar sobre o que jamais saberão. Deveria acordar, e não decidir nada antes do último arrebol. O sol nasceu e eu acordei mais uma vez na utilidade das coisas que fazem sentido para quem quer que elas façam algum sentido.