terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Chuva

Ela tinha uma conexão com a chuva. Sentia que a chuva realmente lavava sua alma e tinha uma conexão íntima consigo. Podia ser, quem sabe, a natureza dela se conectando com a do universo. Algum tipo profundo de serenidade que, através do esquecimento de tudo, as coisas se tornassem mais simples do que eram. Ela não sabia explicar, e não queria. Gostava da sensação de acolhimento, amor e afeto que a chuva lhe proporcionava. Quando, já bem velha, ela se deparou com uma chuva deliciosa e insistente, ela se deu conta de si e virou chuva.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Carnaval #1

As pessoas gritavam. Luzes, barulho e um cheiro forte de urina impregnavam o ambiente sujo. Ninguém se olhava. O rebanho seguia a ordem do trio-elétrico. Felicidade parecia reinar, ou talvez fosse apenas uma imagem surreal de um mundo ilusório. Enquanto alguns pares se pegavam, outros se matavam. Alegria e tristeza. Vida e morte.
Nesse mundo obscuro, um homem andava tão invisível quanto se podia ser. Ele sentia, às vezes, que de tão invisível as pessoas podiam ver através dele. Era completamente desnecessário para o mundo, exceto por ser ele quem limpava toda a sujeira. Ser desnecessário fazia parte do seu papel.
Aquele mundo era ideal para o trabalho que prestava, pois enquanto ninguém olhava ele, com seu uniforme, arrastava a sujeira para os rios, tumbas e sarjetas.
Naquela noite em especial ele tinha muita sujeira pra limpar, e ninguém se importava. Era assim que, enquanto o som e a gritaria ecoavam, ele fazia a limpeza, e, aos seus olhos, deixava o mundo melhor.