sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Modernidades

Ele assinava o jornal. O carteiro entregava o jornal. A mulher dele deixava o jornal sobre a mesa toda as manhãs. Depois ela preparava o café da manhã. Ele descia pegava o jornal, o colocava no colo, tomava café, e, sem perceber, deixava o jornal sobre a mesa e saia. Não lia uma linha. Chegava normalmente às sete horas da noite, sempre cansado demais para o jornal. As notícias já não eram lidas havia anos, mas o carteiro continuava entregando, e ele assinando. Ele não tinha tempo, e a mulher dele tinha whatsapp.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A felicidade

Por toda a vida procurou a felicidade. Estudou muito; trabalhou duramente das oito às dezoito e mais as horas extras; comprou uma casa grande com gramado verde e uma piscina que usava em festas e ocasiões especiais; casou-se com uma mulher linda e de boa família, adorável, mas um pouco mais sem graça que aquela sua namorada considerada um pouco maluca pela sociedade; teve um casal de filhos encantadores - ao menos era assim que ficavam no porta-retrato da mesa do trabalho.

Um dia uma dor lancinante levou-lhe a vida e num último suspiro ele percebeu que perdeu a vida toda que poderia ser feliz tentando ser feliz.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Dia especial

Era quarta-feira. Ele esperava ansioso por aquele dia. Estava nervoso. Batia os pés. Roía unhas. Não tinha atenção no que as pessoas falavam. Quando deu meio-dia saiu para almoçar e não voltou para trabalhar. O chefe preocupado ligou para a família. Ninguém sabia o paradeiro dele. A mulher já estava na delegacia fazendo um boletim de desaparecimento quando deparou com o marido gritando na geral do Maracanã. Era final de campeonato, não havia nada mais importante.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Constelações

Com um toco de giz desenhava estralas distraída na calçada enquanto as estrelas no céu não apareciam. O dia caia, o frio voltava, o negrume ia pouco a pouco tomando conta do céu. Junto com o céu que enegrecia, escurecia também o coração dela, mas ela nem achava isso ruim: dizia que era no escuro do seu coração que a constelação com o sorriso dele aparecia.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Os mundos

Era noite de natal. As pessoas festejavam. Fogos iluminavam o céu desanuviado. As pessoas se abraçavam, embora mal se conhecessem. Ninguém fazia plano no ano novo. A vida era justa, alguns diziam perfeita. Ninguém reclamava de economia, política, saúde, educação. Ninguém reclamava. Existiam autoridades, porém só eram úteis no despachar de papéis de resoluções do povo. Era tudo perfeito (na tela)!

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O som da solidão

Gostava do silêncio externo da solidão. Gostava de ficar só no quarto e na vida, sabia que a solidão lhe era uma sina, portanto tão cedo aprendeu a aprecia-la. O único problema é que era um apreciador do silêncio e a solidão só era silenciosa ao redor, dentro dele, o barulho de ideias desconexas fervilhando era insuportável.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Anoitecer

Quando anoitece a vida se transforma. Quem sonha sabe. O céu muda de um azul claro para um preto profundo. O anoitecer é o segredo do dia. No noite que a vida se dissipa. Tempo se esvai. A moça se decai. O jovem se corrompe. O dia rompe. Ao anoitecer ele saia de casa, mas nunca voltava.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Cansaço

Cansou de esperar. Estivera sentado por muito tempo. Tanto tempo que não tinha ideia de como fora parar naquele lugar. Não se lembrava de muita coisa importante. As coisas importantes tinham desaparecido de sua mente. Estava como que em coma. Os sonhos eram coloridos, mas não sabia nada de cores. O céu era azul? Ele não tinha certeza. Estava cansado e sentado, mas levantar era tão duro quanto ficar. Ele resolveu que não resolveria nada. Estava cansado. Estava sentado. Estará.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Dias quentes, noites geladas

O sol ardia-lhe a face num beijo caloroso. Infelizmente para ele, o amor não era correspondido e ela deitada na cama fazia de tudo para evitar que ele chegasse até seus olhos em vão. Ela estava cansada desses amores quentes e por isso, gelava todos com o gelo de suas tantas doses de uísque. A ressaca agora vinha como fogo de mil dragões e consumia não apenas o estomago, mas também o coração que queria estar vazio, mas queimava de paixão.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O cego ou combinado não é caro.

Ter nascido cego lhe custou trinta anos de escuridão. Não tinha sonhos, exceto um: não ser cego. O dia chegou. Era agosto de 2115, e os avanços tecnológicos permitiriam que ele voltasse a enxergar. Todavia, o custo era alto. Ele precisaria vender a alma para o demônio para ter sua visão. Fez o possível e o impossível, e o grande dia chegou. Na mesa de cirurgia, enquanto os médicos se preparavam para a operação, ele desistiu. O diabo, contudo, não perdoaria a dívida.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Entre a luz e a escuridão

Caminho nenhum havia naquele quase nada ser: entre a luz e a escuridão as formas não tinham nitidez alguma. Não sabia como os devaneios haviam a levado até aquele lugar entre meio a tudo no mundo e, muito pior do que isto, não sabia como poderia sair dali. Pensava que talvez aquilo fosse a exata definição da loucura. Ou não, afinal, loucura tem definição exata?

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Realidade

Colocou Stellar do Incubus para tocar no modo repetido. Recostou-se na cadeira. Tentava imaginar o que a música estava lhe dizendo. O som era triste. Melancólico. Não sabia o que deveria entender. Não entendeu nada. Apenas fechou os olhos, e rezou para não acordar mais. Acordou, sempre acordava.

De súbito e com um pulo, abriu os olhos e notou que a realidade ainda era a mesma a sua volta: triste. Mais triste do que a música que continuava a tocar e ela continuava a não entender. Os mesmos livros ainda estavam a sua frente, a mesma rachadura na parede, a mesma dor no coração, a mesma vontade de não acordar mais.

No fim só queria dormir. Um sono de Alice. Passar horas em devaneios reprisando fantasias da infância.  Entretanto, estava acordado há dias. Já não sabia o que era dormir. Alucinava. Ouvia vozes.   E num devaneio, entre o  vigília e a penumbra, piscou o olho. Depois disso não se recuperou, ficou entre a luz e a escuridão.