sábado, 2 de setembro de 2023

Tempo

Estou no centro de tudo,
e além de nada.
Ontem perdi a última emergência.
Caiu do meu colo junto a desesperos. 
Eu lia, no momento, sobre 
buracos negros e dimensões paralelas. 
Algo intocável. 
Parece intocado,
até olharmos para dentro.
Continuo no centro de tudo. 
Cercado de buracos e minhocas. 
Estou no centro de tudo! 
Em busca de tempo. 
Do tempo que não existe!

quinta-feira, 13 de abril de 2023

13423

Continha um semblante sério. Compenetrado. Tenso. Parecia expressar uma espécie de concentração, mas sua mente não estava ali. Nunca estivera. Ela olhava para tela, e anotava coisas que pareciam importantes. Nada era. Havia um coque nos cabelos, cujos fios estavam especialmente penteados para dar lugar ao pescoço, às orelhas e às joias aurirrubras. O ombro direito estava desnudo. A camisa cinza cobria parte do braço, enquanto abraçava o resto do tórax. O busto estava desenhado pelos movimentos da trama. Ela movimentava a cabeça para os lados tirando parte da tensão. A boca, levemente rósea, sussurrava mantras inaudíveis. Com uma das mãos macias e carinhosas, que tinha unhas curtas e pretas, massageava o pingente vermelho com pequenos movimentos de amassamento. A outra mão apoiava-se numa tela enquanto segurava uma caneta preta e fazia movimentos retilíneos. Ela beliscava desapercebidamente os lábios e levantava sutilmente a sobrancelha. Um ventilador instalado ao fundo balançava levemente minúsculas mechas de cabelo, e ela mudava a direção da cabeça para consultar os textos ao mesmo tempo em que passava a língua e escondia os lábios. Ela suspirava e enchia o pulmão de ar. Depois dobrava a boca durante alguns segundos para expirar. Aos sussurros continuava engolida pela concentração desconcertante. Sem que percebesse foi surpreendida por uns lábios que passearam de seu ombro desnudo até seu pescoço, fazendo-a arrepiar e fremir. Como que se esperasse pelo enleio, deixou-se dominar e consumir pelas mãos que a devoravam enquanto a noite simplesmente sucumbia.

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Morte

Acordou certo dia
morto
de amor.
Absolutamente morto.
Depois desse dia
nunca mais quis
estar verdadeiramente
vivo.

Jornada

- Nenhuma jornada é longa,

- Quando se sabe onde quer chegar?

- Não. Quando não se sabe.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Uma história de amor

Enquanto ele folheava o volume de “Sonhos Elétricos”, ela entrou na biblioteca central da cidade e, passando por ele, exalou o perfume que ele jamais conseguiria esquecer. Havia algo que lembrava alguma coisa que ele parecia já ter sentido. Era familiar e cheio de um sentimento que o aqueceu por dentro.

Ele a seguiu com os olhos, ao mesmo tempo em que – como que magnetizada – ela passou a olhar diretamente nos olhos dele. Qualquer um que olhasse aquela cena teria certeza que eram um casal.

Um olhava para o outro com a inocência de quem não compreendia as consequências da vida moderna. Pareciam, inclusive, brincar naquela dança.

Como era de se esperar, um se aproximou do outro e sem entenderem os porquês das coisas complexas da vida, tocaram-se por longuíssimos segundos. Depois, de mãos dadas, caminharam até a seção de ficção cientifica da biblioteca.

Sentaram-se, e ainda sem pronunciar uma única palavra, continuaram a se comunicar apenas por olhares demorados e existenciais.

Não havia nenhum desejo, nenhuma vontade súbita ou incontrolável pairando sobre as cabeças. Apenas a paz de uma solidão completamente preenchida pela presença do outro.

A voluntariedade dos pensamentos desabitou as duas mentes, e eles ficaram absortos nas incompreensões da felicidade inútil, do momento de amor gestado do mais puro e completo nada.

As sensações não podiam ser exprimidas por beijos, palavras ou quaisquer gestos românticos ou sexuais. Era só existência. A energia do outro completava inteiramente o tempo e o espaço.

Se olharam durantes décadas, ou talvez segundos, nenhum dos dois poderia precisar quanto tempo transcorreu durante aquele momento de absorção.

Alguém se aproximou falou alguma coisa que nenhum dos dois compreendeu ou se preocuparam em entender. Ela se aproxima, fala algo no ouvido dele. No retorno encosta levemente os lábios na porção de carne da bochecha mais próxima da boca.

Ele sente o calor, e fecha os olhos.

Ao abri-los ela não esta mais lá´. Ele se levanta, olha em volta. Devolve o livro na sua estante, e começa a se dirigir para a saída sem olhar para trás, completamente absorto na estranheza.

Ela, em outro canto, segura sem tanta firmeza a mão de alguém, enquanto duvida da sua memoria e da sua existência.

Enquanto caminham perdidos em seus pensamentos parecem ouvir simultaneamente (cada qual em seu destino) alguém dizer “Tudo bem? Você parece estar em outro mundo.”

Nenhum dos dois responde.

domingo, 28 de março de 2021

Multiverso

Quando, em uma certa manhã da primavera de dias absurdamente esquecidos, se deu conta de que poderia viajar pelo multiverso, resolveu acender um cigarro, que fumou calmissimamente, e começar a ler Charles Baudelaire.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Perdido

Abriu a porta da sua casa e saiu sem se dar conta dos detalhes estranhos e fantásticos que pareciam ocorrer. Andou rápido e ao piscar se viu sentado em cadeira executiva numa sala com muita iluminação. Estava diante de um computador que estava aberto no site do jornal de grande circulação da cidade. Levantou-se e andou com ainda  mais pressa procurando a saída e ao ver a porta... piscou. A próxima imagem reproduzida por seus olhos eram de carros passando a toda velocidade. Viu-se sentado num banco de um ponto de ônibus em algum lugar central da cidade. Como não fazia ideia de para onde estava indo resolveu não sair do lugar. Estava inquieto e profundamente perturbado. O vazio que aquela sensação lhe trazia era devastadora. Quis pensar em formas de não se permitir piscar. Pensou em fechar os olhos e não mais abri-los, mas com o pensamento veio o medo de que pudesse ser conduzido para qualquer lugar que não fazia a menor ideia ou ficar vagando entre vários espaços simultaneamente ou ficar preso entre dimensões de sua mente. Não sabia ao certo, mas não queria piscar. Enquanto se esforçava para não piscar, piscou e surgiu diante de si um lugar parecido com um banheiro - era um banheiro. Ele tentou se recordar do local, em vão. Não fazia ideia do que estava acontecendo e só queria voltar a ter controle sobre sua vida. Fechou os olhos, numa tentativa de se reorganizar, e ficou assim por período metafisicamente inexpressivo. Quando abriu os olhos continuava perdido, mas aquele lapso de escuridão lhe mostrou o que tinha que fazer.