quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Viajante

-Afora era tudo complicado, mares verdejantes e céu de abobada celeste. Um teste de restrição. Acontecia a mim tudo, até o que me sobressaia!
-Quem restaurou sua imagem?
-Nunca houve imagem. Talvez reflexos do que eu pensara existir além-mar.
-E essa existência foi complicada?
-Não, a existência é o que é. Ninguém existe além ou aquém, só existe. Eu quis existir apenas em dias de chuva, ou nas tardes frívolas. Havia um quê de vida ali que ninguém via.
-E agora?
-Agora não há nada, só lembranças do que eu não me lembro mais.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

[In]decifráveis

Mal, e por que não?
Afinal nem tudo é
o que deve ser.
O ser é, apenas.
O é em si e sem mais.
É tudo o que traz,
além do que há.
Sempre haverá,
para que haja mais.
Só.
Até que não haja,
e o pó seja pó.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Stereo

Cisma-se na canção!
E pra que? Sem razão?
Outrora até veria ondas
Nas matizes insculpidas.
Viver-se-ia nas perdidas
Dualidades d'umas rondas
inconstante de solidão
Pra viver além do pão!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Reverberações

Deixa-nos intrigados
aquelas inquietações,
solilóquios, pretensões...
no âmago arraigados.
Tais como reverberações,
que reagem com o externo
para impor o inferno
em nuances de estações.
Reverberam intenções,
que parecem não ecoar...
e é tal qual o ato de fumar,
na qual, a força dos pulmões
não fazem com que a fumaça
abandone a carcaça.


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Repetições

Eu repito os dias,
que se repete a si.
Repetidos somos
partes do que não
somos, e não somos
mais o que éramos.
Dias, noites, eu...
Repetidos perdemos
o todo, e nada somos.
Eu perdi, você perde,
ele perdeu!
Repetidos murchamos
no tempo da insignificância,
repetindo em abundância.
Repetidos descontinuamos.


Naufrágio

De encontro à parede!
Naufragando, temendo se afogar.
A vida é esse fogo que queima
e cura, mata e revigora.
Estão naufragando, sem saber.
Estão perdidos no meio do
nada. Nada. Nadem.
Não. Sair do ponto é crucial.
Queima, às vezes, fica cru,
é recuo do naufrágio.
Afundar? Para o nada?
O mar leva, traz, balança...
Amar também...
Naufrágios nos revigoram,
desde que deixemos as paredes,
os muros e os afogamentos.
Naufrágios nos recuperam,
na era em que se afogar é o mar
em que queremos morar.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Esquecimento

Não há já aquele descontentamento,
pueril regozijo, ócio das coisas pequenas,
andar sem destino, procrastinar, viver
a boêmia insólita d'um bairro decadente.

Não se vê o pequeno no pensamento,
apenas ilusões dezenas, centenas...
Talvez até milhares, até doer.
Ninguém esquece o presente,

e deveriam, pois há sentimento
nos crimes, como há nas penas,
embora seja difícil entender
tudo o que aqui é existente.

Por que não esquecer o momento?
Ou lembrá-lo como é apenas?
Esquecer de viver e de morrer,
e no esquecimento resistente

esquecer que não há comportamento
que seja apto a todas as cenas
da vida em seu pleno amadurecer,
não há! Não há viver permanente.

Só esquecendo o conglobamento
de emoções virtuosas e profanas,
que eclodem a cada amanhecer,
para morrer e viver impubescente.