sexta-feira, 23 de julho de 2021

Uma história de amor

Enquanto ele folheava o volume de “Sonhos Elétricos”, ela entrou na biblioteca central da cidade e, passando por ele, exalou o perfume que ele jamais conseguiria esquecer. Havia algo que lembrava alguma coisa que ele parecia já ter sentido. Era familiar e cheio de um sentimento que o aqueceu por dentro.

Ele a seguiu com os olhos, ao mesmo tempo em que – como que magnetizada – ela passou a olhar diretamente nos olhos dele. Qualquer um que olhasse aquela cena teria certeza que eram um casal.

Um olhava para o outro com a inocência de quem não compreendia as consequências da vida moderna. Pareciam, inclusive, brincar naquela dança.

Como era de se esperar, um se aproximou do outro e sem entenderem os porquês das coisas complexas da vida, tocaram-se por longuíssimos segundos. Depois, de mãos dadas, caminharam até a seção de ficção cientifica da biblioteca.

Sentaram-se, e ainda sem pronunciar uma única palavra, continuaram a se comunicar apenas por olhares demorados e existenciais.

Não havia nenhum desejo, nenhuma vontade súbita ou incontrolável pairando sobre as cabeças. Apenas a paz de uma solidão completamente preenchida pela presença do outro.

A voluntariedade dos pensamentos desabitou as duas mentes, e eles ficaram absortos nas incompreensões da felicidade inútil, do momento de amor gestado do mais puro e completo nada.

As sensações não podiam ser exprimidas por beijos, palavras ou quaisquer gestos românticos ou sexuais. Era só existência. A energia do outro completava inteiramente o tempo e o espaço.

Se olharam durantes décadas, ou talvez segundos, nenhum dos dois poderia precisar quanto tempo transcorreu durante aquele momento de absorção.

Alguém se aproximou falou alguma coisa que nenhum dos dois compreendeu ou se preocuparam em entender. Ela se aproxima, fala algo no ouvido dele. No retorno encosta levemente os lábios na porção de carne da bochecha mais próxima da boca.

Ele sente o calor, e fecha os olhos.

Ao abri-los ela não esta mais lá´. Ele se levanta, olha em volta. Devolve o livro na sua estante, e começa a se dirigir para a saída sem olhar para trás, completamente absorto na estranheza.

Ela, em outro canto, segura sem tanta firmeza a mão de alguém, enquanto duvida da sua memoria e da sua existência.

Enquanto caminham perdidos em seus pensamentos parecem ouvir simultaneamente (cada qual em seu destino) alguém dizer “Tudo bem? Você parece estar em outro mundo.”

Nenhum dos dois responde.