sábado, 31 de dezembro de 2016

Ano novo

Quando soaram os primeiros fogos anunciando o ano novo, ele pediu silêncio e anunciou.

-Para que ninguém alegue desconhecimento, digo e afirmo... não há nada de ontem que o hoje tenha transformado. E mais - ele disse tentando olhar para cada pessoa - eu resisto, resisto e não me contento com o passar dos anos. Quando amanhã acordamos todos seremos ontem, ano passado e tudo o mais. Não reformarei nada, sou isso que o passado cicatrizou.

Continuava falando, mas a essa altura ninguém mais prestava atenção, de forma que ele resolveu rememorar sozinho as nostalgias de ser ele mesmo e não ter qualquer expectativa em relação ao fluxo de tempo que não admitia.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Viajante

-Afora era tudo complicado, mares verdejantes e céu de abobada celeste. Um teste de restrição. Acontecia a mim tudo, até o que me sobressaia!
-Quem restaurou sua imagem?
-Nunca houve imagem. Talvez reflexos do que eu pensara existir além-mar.
-E essa existência foi complicada?
-Não, a existência é o que é. Ninguém existe além ou aquém, só existe. Eu quis existir apenas em dias de chuva, ou nas tardes frívolas. Havia um quê de vida ali que ninguém via.
-E agora?
-Agora não há nada, só lembranças do que eu não me lembro mais.