Ela tinha uma conexão com a chuva. Sentia que a chuva realmente lavava sua alma e tinha uma conexão íntima consigo. Podia ser, quem sabe, a natureza dela se conectando com a do universo. Algum tipo profundo de serenidade que, através do esquecimento de tudo, as coisas se tornassem mais simples do que eram. Ela não sabia explicar, e não queria. Gostava da sensação de acolhimento, amor e afeto que a chuva lhe proporcionava. Quando, já bem velha, ela se deparou com uma chuva deliciosa e insistente, ela se deu conta de si e virou chuva.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Carnaval #1
As pessoas gritavam. Luzes, barulho e um cheiro forte de urina impregnavam o ambiente sujo. Ninguém se olhava. O rebanho seguia a ordem do trio-elétrico. Felicidade parecia reinar, ou talvez fosse apenas uma imagem surreal de um mundo ilusório. Enquanto alguns pares se pegavam, outros se matavam. Alegria e tristeza. Vida e morte.
Nesse mundo obscuro, um homem andava tão invisível quanto se podia ser. Ele sentia, às vezes, que de tão invisível as pessoas podiam ver através dele. Era completamente desnecessário para o mundo, exceto por ser ele quem limpava toda a sujeira. Ser desnecessário fazia parte do seu papel.
Aquele mundo era ideal para o trabalho que prestava, pois enquanto ninguém olhava ele, com seu uniforme, arrastava a sujeira para os rios, tumbas e sarjetas.
Naquela noite em especial ele tinha muita sujeira pra limpar, e ninguém se importava. Era assim que, enquanto o som e a gritaria ecoavam, ele fazia a limpeza, e, aos seus olhos, deixava o mundo melhor.
Aquele mundo era ideal para o trabalho que prestava, pois enquanto ninguém olhava ele, com seu uniforme, arrastava a sujeira para os rios, tumbas e sarjetas.
Naquela noite em especial ele tinha muita sujeira pra limpar, e ninguém se importava. Era assim que, enquanto o som e a gritaria ecoavam, ele fazia a limpeza, e, aos seus olhos, deixava o mundo melhor.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Perdimentos #1
Arrependia-se muito! Vivia sob os olhos amargos e pesados do censor. A censura era natural em sua vida. Viver trinta anos sob o efeito destas drogas fazia muito mal às suas predileções, mas ele queria ter o direito de reagir. Cadê a coragem nessas horas? Ele queria fugir (e tenho que comentar que ele sempre fazia isso), mas quando a fuga era de tudo e todos, ele não tinha coragem. Não era completamente covarde, apenas um daqueles caras moles que tinham medo. O medo estava escondido em tudo, e por que viver sem ele (ele pensava). Por algum motivo o medo (pra ele) representava o meio de defesa do mundo, mas não era só isso. Não era. Era um mundo solitário, pesado, constrangedor e muito conflituoso. Ele queria prometer deixar o medo. Ele realmente queria. Seria uma separação dolorosa e inesperada. Nem carta de despedida deixaria. Simplesmente abriria a porta e tomaria um rumo qualquer. Tinha certeza de que a coragem o esperaria do lado de fora da porta, mas abri-la requereria muito mais dele. Talvez outros trinta anos, talvez choque, talvez uma nova dimensão. Quem sabe? Ele até chegou a abrir a porta, algumas vezes, mas, antes de sair, sempre olhava pra trás!
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
- Mãe, por que eu não posso voar?
- Oxê menino! Mas que pergunta é essa agora? Você não é pássaro, é menino.
- Mas mãe, por que eu não posso voar?
- Porque menino não voa, ora essa. Mas era só o que me faltava esse tipo de pergunta agora.
- Tá, mãe. Eu não tenho asas como os passarinhos, mas não tem como voar dentro de aviões?
- Ah, menino... Talvez para nós seja mais fácil criar asas do que voar dentro dessas máquinas de ferro voadoras.
Ele fez uma cara entristecida e carregou o sonho porta afora. O ar quente abafou-lhe a face e os urubus que voavam no gado morto de sede pareciam debochar dele. O sonho murchou. Para sempre.
- Oxê menino! Mas que pergunta é essa agora? Você não é pássaro, é menino.
- Mas mãe, por que eu não posso voar?
- Porque menino não voa, ora essa. Mas era só o que me faltava esse tipo de pergunta agora.
- Tá, mãe. Eu não tenho asas como os passarinhos, mas não tem como voar dentro de aviões?
- Ah, menino... Talvez para nós seja mais fácil criar asas do que voar dentro dessas máquinas de ferro voadoras.
Ele fez uma cara entristecida e carregou o sonho porta afora. O ar quente abafou-lhe a face e os urubus que voavam no gado morto de sede pareciam debochar dele. O sonho murchou. Para sempre.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Morte
Quando no fim da vida se deu conta de que tivera uma vida maravilhosa. Tivera um bom emprego que lhe rendia bons salários. Tivera uma família bonita e alegre. Tivera muitos bens e gozou da boa vida. Qual o motivo do vazio, então? Não sabia explicar o vazio! Sempre fez o que deveria ser feito, não obstante isso não se sentia realizado e preparado para a morte, mas morreu mesmo assim!
domingo, 14 de dezembro de 2014
Juramento
Pareciam namorados. Andavam de mãos dadas sempre. As demonstrações de afeto em pública eram constantes. Ele sempre atencioso, ela extremamente carinhosa. O amor deles contaminava o ambiente. Onde estivesse eram o centro das atenções. Não gostavam, mas não escondiam o amor, afinal tinham jurado amor eterno perante Deus. O que ninguém sabia, contudo, é que quando ninguém estava vendo não passavam de dois irmão que não suportavam um ao outro.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Buracos
Desde criança era dona de uma timidez absurda. Na escola sonhava pelo dia em que um buraco apareceria embaixo de sua cadeira para poder se esconder toda vez que a professora chamava seu nome, mal brincava com os coleguinhas e vivia meio pelos cantos desejando ser invisível. Cresceu e parece que o diacho da timidez cresceu com ela: continuava sonhando com um buraco onde pudesse se esconder.
E de tantos buracos desejados, um dia conheceu um que era seu e que ela nunca quis ter: um bem no meio do coração criado por um amor platônico, o qual ela preferia morrer a contar que sentia.
E de tantos buracos desejados, um dia conheceu um que era seu e que ela nunca quis ter: um bem no meio do coração criado por um amor platônico, o qual ela preferia morrer a contar que sentia.
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