Arrependia-se muito! Vivia sob os olhos amargos e pesados do censor. A censura era natural em sua vida. Viver trinta anos sob o efeito destas drogas fazia muito mal às suas predileções, mas ele queria ter o direito de reagir. Cadê a coragem nessas horas? Ele queria fugir (e tenho que comentar que ele sempre fazia isso), mas quando a fuga era de tudo e todos, ele não tinha coragem. Não era completamente covarde, apenas um daqueles caras moles que tinham medo. O medo estava escondido em tudo, e por que viver sem ele (ele pensava). Por algum motivo o medo (pra ele) representava o meio de defesa do mundo, mas não era só isso. Não era. Era um mundo solitário, pesado, constrangedor e muito conflituoso. Ele queria prometer deixar o medo. Ele realmente queria. Seria uma separação dolorosa e inesperada. Nem carta de despedida deixaria. Simplesmente abriria a porta e tomaria um rumo qualquer. Tinha certeza de que a coragem o esperaria do lado de fora da porta, mas abri-la requereria muito mais dele. Talvez outros trinta anos, talvez choque, talvez uma nova dimensão. Quem sabe? Ele até chegou a abrir a porta, algumas vezes, mas, antes de sair, sempre olhava pra trás!
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
- Mãe, por que eu não posso voar?
- Oxê menino! Mas que pergunta é essa agora? Você não é pássaro, é menino.
- Mas mãe, por que eu não posso voar?
- Porque menino não voa, ora essa. Mas era só o que me faltava esse tipo de pergunta agora.
- Tá, mãe. Eu não tenho asas como os passarinhos, mas não tem como voar dentro de aviões?
- Ah, menino... Talvez para nós seja mais fácil criar asas do que voar dentro dessas máquinas de ferro voadoras.
Ele fez uma cara entristecida e carregou o sonho porta afora. O ar quente abafou-lhe a face e os urubus que voavam no gado morto de sede pareciam debochar dele. O sonho murchou. Para sempre.
- Oxê menino! Mas que pergunta é essa agora? Você não é pássaro, é menino.
- Mas mãe, por que eu não posso voar?
- Porque menino não voa, ora essa. Mas era só o que me faltava esse tipo de pergunta agora.
- Tá, mãe. Eu não tenho asas como os passarinhos, mas não tem como voar dentro de aviões?
- Ah, menino... Talvez para nós seja mais fácil criar asas do que voar dentro dessas máquinas de ferro voadoras.
Ele fez uma cara entristecida e carregou o sonho porta afora. O ar quente abafou-lhe a face e os urubus que voavam no gado morto de sede pareciam debochar dele. O sonho murchou. Para sempre.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Morte
Quando no fim da vida se deu conta de que tivera uma vida maravilhosa. Tivera um bom emprego que lhe rendia bons salários. Tivera uma família bonita e alegre. Tivera muitos bens e gozou da boa vida. Qual o motivo do vazio, então? Não sabia explicar o vazio! Sempre fez o que deveria ser feito, não obstante isso não se sentia realizado e preparado para a morte, mas morreu mesmo assim!
domingo, 14 de dezembro de 2014
Juramento
Pareciam namorados. Andavam de mãos dadas sempre. As demonstrações de afeto em pública eram constantes. Ele sempre atencioso, ela extremamente carinhosa. O amor deles contaminava o ambiente. Onde estivesse eram o centro das atenções. Não gostavam, mas não escondiam o amor, afinal tinham jurado amor eterno perante Deus. O que ninguém sabia, contudo, é que quando ninguém estava vendo não passavam de dois irmão que não suportavam um ao outro.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Buracos
Desde criança era dona de uma timidez absurda. Na escola sonhava pelo dia em que um buraco apareceria embaixo de sua cadeira para poder se esconder toda vez que a professora chamava seu nome, mal brincava com os coleguinhas e vivia meio pelos cantos desejando ser invisível. Cresceu e parece que o diacho da timidez cresceu com ela: continuava sonhando com um buraco onde pudesse se esconder.
E de tantos buracos desejados, um dia conheceu um que era seu e que ela nunca quis ter: um bem no meio do coração criado por um amor platônico, o qual ela preferia morrer a contar que sentia.
E de tantos buracos desejados, um dia conheceu um que era seu e que ela nunca quis ter: um bem no meio do coração criado por um amor platônico, o qual ela preferia morrer a contar que sentia.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Inexistência
Ele já não saia de casa há dias. Nos primeiros, o telefone tocava sem parar. Talvez fosse o chefe. Talvez a paquera da qual ele não retornou as ligações. Talvez fosse algum familiar. Não importava. Ele estava disperso, e, embora acordado, inconsciente. Fixara o teto do quarto por bastante tempo. O teto continha um papel de parede de galaxias. Um desenho fabuloso, mas que, para ele, apequenava a existência de qualquer um. Após dias admirando o desenho, sentia-se inane, completamente. A sua existência era material e frívola. Seu corpo era mero objeto de uma realidade inexplicável, e pensar nela era demais para um cérebro fatigado. A solidão não existia, pois no estado de absorção em que ele se metera a vida e a morte andavam de mãos dadas.
Amargor
Sentia um gosto amargo na boca. O amargor começava no fundo da língua, e contaminava toda a boca. O gosto era terrível. Não se lembrava de ter bebido ou comido nada, alias só comia depois do meio-dia e ainda faltavam quinze para as onze da manhã. Ficou intrigado com aquele gosto. Pensou que poderia ser algo na repartição em que trabalhava, mas, ao consultar os colegas, ninguém se identificou com o problema. Ao voltar do almoço, sentiu que o problema permanecia, e se acentuava quando admirava alguns fatos. Notou que o amargo decorria de um fenômeno estranho. A Marcinha, que nunca aceitara sair consigo, estava correspondendo a caricias. Foi então que ele provou fisicamente da desilusão.
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