sexta-feira, 27 de junho de 2014

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Solenidades

Rezava. Rezava com imprudência. Os joelhos cheiravam demência. Os dedos de contar rosário. Rezava sempre, e até mais que o vigário. Todas as manhãs. Todas as noites. Crente. Temente. Afoite. Rezava. Castigava. Era fé. Era fava. Dizia velar bons costumes e ter alma cristã, mas lambia a mão de satã. No fundo era divida. A mesma boca que lambia a morte, beijava a vida.

domingo, 1 de junho de 2014

Instável

Era moço jovem. As forças saltavam aos braços. Gentil e bem apessoado. Tinha sorriso fácil, e era benquisto. Todavia, quando anoitecia, ele amargava. Ninguém lhe perguntava da doença o nome. O rosto fechava, parecia loucura, mas era fome.

domingo, 25 de maio de 2014

Mil faces

Ela havia descoberto a cura para todas as doenças existentes, mas sabia que se divulgasse naquele momento as pessoas que precisavam do tratamento não teriam acesso a ele. Quando, em tom ultrassecreto, informou seu amigo e companheiro de pesquisas que havia descoberto a cura, e que distribuiria a fórmula sem custos, ele a alertou que ela mataria mais que Hittler, que haveria superpopulação nas cidades, miséria, superlotação dos sistemas de saúde, etc. Ela não sabia o que fazer. Quando criou a cura, esqueceu-se que a morte tem mil faces.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Caminhos

Ele quis acreditar que era verdade. O mundo conspirava pra ser. Ele sorria, ela também. Ele era uma pessoa normal, e ela uma pessoa de sucesso. Isso não fazia diferença, pensava ele. Quando ele ofereceu cerveja pra ela na balada, os caminhos tomaram rumos diferentes.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Deformação

Ela acordou assustada, era madrugada de uma sexta-feira 13 qualquer e ela tinha horror de sextas-feira 13. Notou, ao se mexer, que um homem dormindo ao seu lado. Não fazia ideia de quem fosse. Pensou em gritar, mas ele parecia familiar, ou talvez fosse um pesadelo. Olhou para o quarto e não se lembrava dele, tampouco dos móveis. Os móveis estavam dispostos de forma que o dono do quarto parecia uma pessoa muito asseada, o que ela não era. Não sabia o que fazia ali. Pensou em seu próprio nome, mas não sabia qual era, tampouco qualquer coisa sobre sua história. Tentou dormir novamente, mas não conseguia lidar com o fato de que representava tão pouco para si mesma que sequer se reconhecia. A realidade a esmagava. Não era ninguém. A sua vida era vazia. Deformada, saiu para comprar cigarros, embora não tivesse qualquer ideia se fumava ou não, e não voltou.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Não é você

Não é você, é o cheiro de pitanga amarga que você tem quando passa perto de mim. Não é você, é aquele olhar que me engole quando passa. Não é você, é aquela barba que sobra quando você me diz um simples "oi". Não é você, é a sua mão que pesa mais que meu mundo inteiro. Não é você, é o timbre da sua voz rouca que come meus pedaços. Não é você, é seu abraço que me acolhe como criança. Não é amor, não, é você.